Conflitos entre Índia e China

Mestre em História Comparada (UFRJ, 2020)
Bacharel em História (UFRJ, 2018)

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A relação estabelecida entre Índia e China é complexa pelos diversos conflitos ligados às questões da fronteira compartilhada e, consequentemente, das disputas de poder sob o território do continente asiático. Esses conflitos se iniciam durante a década de 1950 e apresentam uma ebulição a partir da Guerra Sino-Indiana, de 1962.

A questão das fronteiras

O principal fator que impulsiona os conflitos entre as duas nações diz respeito às fronteiras compartilhadas, já que os dois territórios dividem uma fronteira de 3440 km. Primeiramente, a região dos Himalaias foi centro de disputa pela China, Rússia e Inglaterra imperiais. Além dos Himalaias, o território do Tibete era desejado pelos britânicos para ser utilizado como Estado tampão, no intuito de evitar a colisão dos impérios.

Outras regiões como Ladakh e Aksai Chin também foram motivo de briga e dificultaram ainda mais a demarcação das fronteiras dos territórios asiáticos, principalmente, China, Índia e Tibete. É válido ressaltar que, nesse momento, a Índia ainda fazia parte da dominação britânica e a China, até 1912, era comandada pela dinastia Qing.

Já em 1914 ocorreu a Convenção de Simla que contava com a participação do Tibete, China e o Império Britânico. A Convenção foi responsável por decidir sobre a divisão do território do Tibete e, novamente, sua utilização como Estado tampão. Apesar da presença dos chineses, o tratado da repartição não foi de comum acordo e a China não validou as delimitações feitas pela Linha de McMahon. Por isso, logo depois, os chineses foram os principais incentivadores para o separatismo tibetano.

As mudanças da década de 1940

O final da década de 1940 foi marcado por diversas mudanças nos territórios da Índia e da China. Os movimentos de independência da Índia acarretaram sua emancipação da metrópole britânica em 1947. Já a China, após um longo período de instabilidade política derivado da Revolução Republicana, passou, em 1949, pela Revolução Chinesa.

Mesmo tendo como pano de fundo a Guerra Fria (1949 - 1991), as duas nações estabelecem uma aproximação bilateral utilizando como pretexto os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica. Assim, em um primeiro momento, pode-se entender que a relação entre os dois Estados foi de conformidade, tendo ambos participado da Conferência de Bandung (1955) cinco anos depois de a Índia reconhecer Tibete como território integral da China e favorecer-se com acordos comerciais estabelecidos entre os países.

A Guerra Sino-Indiana (1962) e suas consequências

As tensões retomam quando a China iniciou um movimento de reformas agrárias e sociais na região tibetana, restringindo as relações do Tibete com outros países. Por um lado, a Índia saiu prejudicada pelas mudanças realizadas, por outro, a China nutriu desconfianças do governo indiano por refugiar o líder religioso do budismo tibetano, Dalai Lama Tenzin Gyatso.

Assim, em 1962, eclodiu a Guerra Sino-Indiana, consequência de um contexto hostil e de dificuldade da demarcação dos territórios fronteiriços entre China e Índia. O conflito apresentava a região dos Himalaias, e dentro dele, o território da Caxemira e do Tibete, como centro da disputa dos dois países.

A guerra teve seu término no mesmo ano com a derrota indiana que, por conseguinte, demonstrou o poder chinês sob o continente asiático. No entanto, o final da guerra não significou o fim dos conflitos militares entre os países, em 1967 e 1987 estouraram novas lutas. Dessa forma, no intuito de apaziguar essa relação, estabelece-se, legalmente, a Linha de Controle Real (LAC) para marcar as fronteiras.

A relação no século XXI

Em 2020, após anos sem uma disputa que resultasse em mortes, as nações entraram em conflito novamente, ocasionando em 20 mortes do lado indiano. Dessa vez, na região de Ladakh, parte da Linha de Controle Real. A disputa teve como causa a acusação de invasão de território por ambas as partes, desrespeitando o acordo da Linha de Controle Real.

Bibliografia:

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