Manifesto dos dezesseis

Graduação em História (Universidade do Vale do Sapucaí, UNIVÁS, 2008)

O “manifesto dos dezesseis” é o nome pelo qual ficou conhecido o documento de autoria dos líderes anarquistas Piotr Kropotkin e Jean Graves, proeminentes anarquistas europeus, no sentido de uma tomada de posição do movimento anarquista quanto ao desenvolvimento da Primeira Guerra Mundial e a atuação do movimento anarquista nesse contexto.

O documento é uma tomada oficial de posição desses dois líderes importantes do movimento anarquista europeu, buscando fomentar uma tomada de posição do movimento como um todo diante dos desafios propostos pelo contexto de guerra. O Manifesto foi feito público através da imprensa, mais especificamente do periódico “Freedom”.

Essa tomada de posição ia no sentido de apoiar a guerra que se fazia contra os Impérios Centrais (Império Austro Húngaro, Império Alemão e Império Turco Otomano) como um modo de resolução das disputas e de refrear o ímpeto do Império Alemão, dando então o apoio, ainda que apenas teórico, ao esforço aliado para derrotar os alemães.

Os principais líderes desse processo de tomada de posição foram Emma Goldman, Rudolf Recker e o próprio Piotr Kropotkin. A eles coube pensar e redigir o manifesto, divulgá-lo e, mais tarde, lidar com toda a complexidade de reações provocadas no seio do movimento anarquista na Europa.

Nessa época, Kropotkin mantinha contato com pessoas que compartilhavam com ele a ideia de que o melhor para o esforço do movimento anarquista era realmente o apoio ao esforço dos aliados. O Manifesto foi publicado na imprensa primeiramente no periódico “La Battaille”, no dia 14 de março de 1916, tendo sido replicado por toda a Europa logo depois.

A ideia de Kropotkin era de que a guerra era u mato de resistência dos povos e do movimento anarquista contra a política alemã, que já demonstrava tendências ao endurecimento, bem como o combate à influência que essa lógica exercia em outros países, principalmente no Império Russo.

O grupo de Kropotkin supunha que uma derrota alemã na guerra seria um momento ideal para o movimento anarquista no país e no continente.

Apesar do nome, que evoca os “dezesseis”, o manifesto original foi assinado por quinze pessoas, inicialmente. Ao longo do tempo, esse número cresceu para mais de cem signatários. No entanto, a resposta não foi das melhores.

O ideal expresso no manifesto ia contra a maior parte do movimento anarquista. Por essa razão, na Espanha e na Suíça, houve uma forte resistência às ideias do manifesto e anarquistas que haviam se posicionado favoráveis às teses de Kropotkin foram denunciados por traição, perseguidos e marginalizados no seio do movimento, principalmente no Império russo, onde o movimento estava dividido.

Um ponto fundamental tanto na ideia e adoção do manifesto quanto na lógica de guerra é a influência de um profundo antigermanismo presente na sociedade russa. Esse sentimento tinha sua origem diversa. Tanto pela influência germânica na família real russa do Romanov quanto a influência de Bakhunin, que nutria uma profunda resistência ao marxismo surgido na Alemanha, pois considerava Marx culpado por colaborar com o cenário político que levou Otto Von Bismarck ao poder no Império Alemão.

No início da Primeira Guerra Mundial, Kropotkin foi preso, suspeito de motivar os assassinos do arquiduque austro húngaro Franz Ferdinand, cujo assassinato foi o estopim para a eclosão do conflito. Preso, foi entrevistado pelo New York Times e por este foi mostrado ao mundo como alguém favorável à guerra e a seus possíveis efeitos na liberalização da sociedade russa.

Um aspecto fundamental do desenvolvimento do manifesto foi a discordância dele com Jean Grave, pois Kropotkin acreditava que a guerra deveria ser travada e vencida para que os vitoriosos pudessem passar a ditar as regras, enquanto Grave exigia o fim do conflito de qualquer forma.

No documento conhecido por “Carta para Steffen” o anarquista russo faz defesa da guerra alegando que o Império Alemão havia prejudicado as ideias anarquistas na Europa.

Como efeito imediato, Kropotkin esperava que a sociedade russa se radicalizasse e unisse após a guerra, lutando contra a aristocracia e abrindo espaço para o anarquismo.

Bibliografia:

Kropotkin. O Princípio Anarquista e outros ensaios. Disponível em: https://books.google.com.br/[...]

http://www.pucsp.br/ecopolitica/downloads/artigos/intempestivo-rev10.html