Revolta da Vacina

Graduada em História (UFF, 2017)
Mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ, 2012)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2009)

A cidade do Rio de Janeiro sofria em 1904 com sérios problemas de saúde publica. Com cerca de 800 mil habitantes, diversas doenças – como tuberculose, peste bubônica, febre amarela, varíola, malária, tifo, cólera - assolavam a população e eram objeto de preocupação dos governantes. O então presidente Rodrigues Alves com o intuito de modernizar (e embelezar) a cidade e também controlar tais epidemias, iniciou uma série de reformas urbanas que mudou a geografia da cidade e o cotidiano de sua população.

As mudanças arquitetônicas da cidade ficaram a cargo do engenheiro Pereira Passos. Ruas foram alargadas, cortiços foram destruídos e a população pobre removida de suas antigas moradias. Coube a Oswaldo Cruz, nomeado diretor geral de Saúde Pública em 1903, a missão de promover um saneamento na cidade e erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Com este intuito, em junho de 1904 o governo fez uma proposta de lei que tornava obrigatória a vacinação da população. Mesmo com 15 mil assinaturas contrárias, a lei foi aprovada no dia 31 de outubro.

A esta lei já impopular, juntou-se uma drástica regulamentação proposta por Oswaldo Cruz. Nela, exigia-se comprovantes de vacinação para realizar matrículas nas escolas, assim como para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa-se também o pagamento de multas para quem resistisse à vacinação. Quando esta proposta vazou para a imprensa, o povo indignado e contrariado deu início a maior revolta urbana que já tinha sido vista na capital.

A revolta começou em tono da estátua de José Bonifácio no Largo de São Francisco e rapidamente se espalhou por diversos lugares da cidade atingindo locais como Laranjeiras, Botafogo, Tijuca, Rio Comprido, Engenho Novo, Copacabana, além dos bairros da região central. Pedras, tiros, barricadas, fogueiras, depredações, eram utilizadas pela população para mostrar sua insatisfação. A repressão policial foi severa, sendo o saldo total desta revolta a prisão de 945 pessoas na Ilha de Cobras, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportações para o Estado do Acre.

José Murilo de Carvalho aponta para o fato que tiveram várias revoltas dentro da revolta, isto é, vários segmentos da população de diversas classes sociais e motivações políticas estiveram a frente destas agitações. Segundo o autor, a motivação para o povo se rebelar não era fundamentalmente econômica, e nem o deslocamento populacional ocasionado pelas mudanças ocorridas na cidade (embora, muitos estudiosos afirmem que a revolta ocorreu por uma soma de insatisfações com a política realizada, inclusive a remoção das moradias). Para ele, a Revolta da Vacina se distingue de protestos anteriores pela sua amplitude e intensidade baseada na justificativa moral.

A forma como o processo foi conduzido por Oswaldo Cruz, apesar das boas intenções, foi entendido como arbitrário e despótico, sendo suas medidas apontadas como violação dos direitos civis e constitucionais. Além disso, havia um componente moral muito grande, pois naquela época foi considerado um crime contra honra de um chefe de família que seu lar, assim como os corpos de suas mulheres fossem invadidos por um desconhecido.

Carvalho analisando a revolta, afirma que o povo: “Embora não se interessassem por política, embora não votasse, ele tinha razão clara dos limites da ação do Estado. Seu lar e sua honra não eram negociáveis, a revolta deixou entre os participantes um forte sentimento de autoestima, indispensável para formar um cidadão”.

Bibliografia:

Historia do Brasil para ocupados. Organização: Luciano Figueiredo. Casa Da Palavra, 2013.

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