Revolta de Carrancas

Graduada em História (Udesc, 2010)
Mestre em História (Udesc, 2013)
Doutora em História (USP, 2018)

Sempre abrir.

A Revolta de Carrancas foi um levante organizado por homens e mulheres escravizados em 13 de maio de 1833, em Minas Gerais, mais precisamente nas terras de uma poderosa família da região: a família Junqueira. O período regencial, que marcou a década de 1830, ficou caracterizado como um período de muitos movimentos contestatórios. A abdicação de D. Pedro I e a impossibilidade de D. Pedro II assumir o trono do império deixou a nação exposta a levantes.

Um dos pontos de maior fragilidade era a questão da escravidão. Desde o início do século XIX a Inglaterra insistia e pressionava as nações pelo fim do regime escravista. Locais como o Brasil, estruturados a partir da monocultura, do latifúndio e do trabalho escravo, resistiam em aderir ao sistema de trabalho livre. O medo de revoltas de escravos era constante entre os proprietários, ainda mais depois da bem-sucedida experiência haitiana, que em 1804 viu os escravos expulsarem e assassinarem seus algozes e estabelecerem seu governo. No Brasil a mais famosa revolta de escravos aconteceu em Salvador, Bahia, em janeiro de 1835: foi o levante ou revolta dos Malês, uma rebelião de escravos muçulmanos. Embora tenha sido logo repreendida e sufocada, a revolta baiana espalhou o medo entre os senhores de engenho e proprietários de escravos.

Assim como a Bahia, Minas Gerais também recebeu um número elevado de escravos, principalmente para o trabalho na terra e nas minas. A Freguesia de Carrancas, localizada ao sul de Minas Gerai, era uma região com grande número de escravos, vindos de forma compulsória do continente africano. Inclusive, havia mais sujeitos escravizados do que trabalhadores livres na localidade.

As fazendas de Campo Alegre e de Bela Cruz, onde a Revolta de Carrancas aconteceu, foram porções de terras doadas pela Coroa a João Francisco Junqueira. A família Junqueira possuía a maior parte dos escravos na região, que trabalhavam em suas terras. Cabe destacar que até 1850, quando a Lei de Terras transformou a terra em capital, media-se a riqueza pela quantidade de escravos que alguém possuía, e a família Junqueira tinha muitos à época. O medo era constante, principalmente após 1831, quando a população escrava da região tentou se organizar contra os seus senhores. Mas, a revolta escrava só veio a ocorrer dois anos depois, em 1833.

A revolta iniciou pela fazenda de Campo Alegre, posse de Gabriel Junqueira, proprietário de escravos e deputado da corrente liberal. Os escravos, sob a liderança de Ventura Mina, organizaram um motim e mataram Gabriel. De lá dirigiram-se para a Fazenda Bela Cruz, onde assassinaram a família de José Francisco Junqueira, irmão de Gabriel. Eles eram herdeiros de João Francisco. A saga continuou com o objetivo de matar outro membro da família: Manuel José da Costa, genro de José. Assim que chegou à Bela Cruz foi também morto. De lá o grupo de revoltosos partiu para a Fazenda Bom Jardim, propriedade de João Cândido Junqueira, que já avisado do ocorrido nas fazendas de Campo Alegre e Bela Cruz organizou a resistência, e assim os revoltosos encontraram lá maior dificuldade. Esse conflitou levou alguns revoltosos à morte, como foi o caso do líder Ventura Mina.

A movimentação dos escravos de Minas Gerais mostra a revolta com os senhores de escravos e com o trabalho compulsório. Homens e mulheres que foram escravizados lutaram pelo fim da exploração da sua força de trabalho e de suas vidas. A Revolta de Carracas é mais um exemplo de como a problemática da escravidão se mostrava cada vez mais complexa no Brasil do século XIX. Movimentos como este mostraram que o medo do haitianismo não era infundado: se boa parte da população era escravizada, caso se organizassem conseguiriam tomar o poder e virar o jogo contra os senhores das terras, proprietários de escravos. Assim, a escravidão era um problema urgente, que exigia atenção. Pouco tempo depois estourou na Bahia o levante do Malês, que causou mais preocupação ainda aos proprietários e ao governo. Mas, a escravidão ainda demorou a acabar no Brasil.

Referências:

SCHWARCZ, Lilia; STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Arquivado em: Brasil Imperial