Revolta dos Mercenários

Graduada em História (Udesc, 2010)
Mestre em História (Udesc, 2013)
Doutora em História (USP, 2018)

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Para formação de uma nação alguns elementos são fundamentais: uma língua unificadora, a força militar nacional, os símbolos que unem e identificam o país, e, principalmente, a definição do território. Desde o início do século XIX, quando a independência do Brasil já era esperada, a problemática em torno do seu território começou a ocorrer. Essa configuração de um vasto território foi fundamental pela opção monárquica. Nos anos que se seguiram ainda houve muita disputa, e eventos como a Revolta dos Mercenários, datada de 1828, são exemplos do quão latente era a disputa territorial no Brasil recém independente.

A Revolta dos Mercenário ocorreu entre 9 e 11 de junho de 1828 na Corte, mas fez parte do contexto de disputas da Guerra da Cisplatina, quando os embates contra as províncias do Rio da Prata resultaram na emancipação do Uruguai. A questão é que as notícias demoravam a circular, e, muitas vezes, chegavam à Corte de forma distorcida. Foi dessa forma que teve início a Revolta dos Mercenários. Passou a circular no Rio de Janeiro a notícia que dois alemães haviam sido assassinados por um batalhão brasileiro. Mas, a fofoca não foi a única motivação da revolta. Os batalhões formados por alemães que se encontravam no Rio de Janeiro e já estavam incomodados com a sua situação. Os imigrantes irlandeses recebiam melhores condições para o alistamento nas forças armadas. As diferenças ficaram mais evidentes quando estes passaram a conviver no 3º Batalhão: os irlandeses recebiam alimentação mais farta e um soldo maior, e não recebiam castigos físicos. Desde o início do ano de 1828 os alemães passaram a reivindicar condições semelhantes às dos irlandeses e solicitar intermédio de representantes políticos a fim de conquistarem suas demandas.

Isso fez com que o Conde do Rio Pardo, Comandantes das Armas, procurasse intermediar a situação prevendo que as coisas pudessem sair do controle em breve. Ele enviou um ofício para Bento Barroso Pereira, ministro da guerra, informando da situação e da insatisfação dos alemães e solicitando providências, principalmente em relação aos contratos firmados na Europa que estabeleciam as normas para a estada dos alemães no Brasil, ou seja, determinavam o tempo de trabalho e outros pormenores. Depois de anos da chegada dos alemães este contrato ainda não havia sido ratificado e, portanto, a condições de vida e trabalho não foram atualizadas. Assim, o Conde do Rio Pardo enviou junto ao seu pedido um modelo de contrato de serviço militar, demonstrando a urgência com que a questão precisava ser tratada.

As questões centrais eram o valor do soldo e a regulamentação do tempo de serviço, além dos castigos físicos. A carta enviada ao Ministro da Guerra previa resoluções para as duas primeiras questões, muito embora não se equiparassem ao que recebiam os irlandeses. No entanto, a questão das penalidades parecia não ter solução próxima. Tanto não teve solução que uma desavença ocorrida no início do mês de junho culminou na Revolta dos Mercenários.

Um soldado alemão estava em uma venda no período da noite, após seu dia de trabalho, no dia 4 de junho de 1828. Um oficial brasileiro, passando pela venda, questionou a presença do alemão tarde de noite. Somou ainda a falta de saudação do alemão para o brasileiro. O oficial resolveu levar a questão até o major, que mandou prender o alemão e condenou-o a 25 chibatadas, que deveriam ocorrer no dia 9 daquele mês.

Mas, naquele dia 9 de junho de 1828, no horário em que as chibatadas deveriam ser aplicadas, os soldados estrangeiros se organizaram e começaram a contestação. Não só alemães como também irlandeses fizeram parte do movimento. De nada adiantou: o soldado foi exposto ao castigo, e ainda aumentado em cinco vezes, para choque dos soldados estrangeiros. O batalhão de revoltosos foi enviado à Ilha das Cobras e os envolvidos foram condenados a cem chibatadas. Muitos foram mortos, muitos foram feridos e os batalhões de mercenários estrangeiros foram dissolvidos, tendo sido seus integrantes deportados para seu país de origem.

Referência:

POZO, Gilmar de Paiva dos Santos. Imigrantes irlandeses no Rio de Janeiro: cotidiano de revolta no primeiro reinado. São Paulo: Universidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em História Social, 2010.

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