Ocitocinas

Mestrado em Ciências Veterinárias (UFU, 2013)
Graduação em Ciências Biológicas (UEG, 2010)

A ocitocina ou oxitocina é um hormônio peptídico, produzido no hipotálamo, armazenado e liberado na neurohipófise (hipófise posterior). Suas funções mais conhecidas são o estímulo da contração uterina no parto e a ejeção do leite na lactação. No entanto, várias outras funções estão sendo associadas a ocitocina, como estímulo do cuidado parental e do vínculo materno e social, melhora do estresse e ansiedade, atuação no orgasmo, entre outros.

Em 1906 o farmacologista britânico Henry Dale nomeou a substância contida no extrato da neurohipófise de ocitocina, do grego oxys, que significa “veloz”, e tokós, que significa “parto”, assim o termo “parto rápido”, ao observar a indução do parto por ela em gatas.

Mesmo conhecendo os efeitos das substâncias provenientes da neurohipófise, somente em 1953 o químico estadunidense Vincent Du Vigneaud descreveu a diferença entre a vasopressina, que atuava no aumento da pressão sanguínea, e a ocitocina, com efeitos no trabalho de parto. Após esse trabalho, ele sintetizou essa molécula e até hoje ela é utilizada como aceleradora do parto em humanos e outros mamíferos e na ejeção do leite em vacas leiteiras. Esse trabalho lhe rendeu o prêmio Nobel, dois anos depois.

Estrutura química e produção

A ocitocina é um peptídeo composto por nove aminoácidos (Cys-Tyr-Ile-Gln-Asn-Cys-Pro-Leu-GlyNH2) com uma ponte dissulfeto entre as duas cisteínas, tal estrutura é semelhante à da vasopressina, diferindo em dois aminoácidos. O gene OXT codifica sua síntese e está presente em humanos no cromossomo 20.

Esse hormônio é produzido pelos neurônios do núcleo paraventricular e supraóptico do hipotálamo. Seus axônios projetam-se para a neurohipófise, onde suas porções terminais formam bulbos contendo as vesículas com o peptídeo, o qual é secretado e ganha a circulação, sempre que há o estímulo.

Uma parte da ocitocina é liberada nos dendritos dos neurônios sintetizantes e vão agir no sistema nervoso central, funcionando como um neuromodulador.

Estímulo para a secreção

Durante o parto e a lactação, a liberação da ocitocina pode ser modulada por sua própria molécula em um mecanismo de retroalimentação positiva, ou seja, quanto mais ocitocina é liberada, há mais estímulo para sua produção e liberação no eixo hipotalâmico-hipofisário.

No entanto, sua secreção é complexa, devido a vasta inervação da região paraventricular, por isso, existem outros mecanismos que a estimulam, como, os neurotransmissores noradrenalina, acetilcolina, serotonina, dopamina, entre outros. Há ainda os estímulos externos pelo toque, calor, olfato, sons e iluminação; e os psicológicos de interações sociais positivas, ambiente acolhedor, empatia e estímulos sexuais.

Ação da ocitocina e seu receptor

Existe apenas um receptor conhecido para esse hormônio, o Oxtr, um receptor acoplado a proteína G, que está presente tanto no miométrio e nas células mioepteliais das glândulas mamárias, quanto no sistema nervoso central. Sua distribuição varia nas espécies e entre gêneros. É percebida uma sensibilidade maior à ocitocina nas mulheres, porque, produzem mais receptores.

Algumas das múltiplas ações desse hormônio podem ser classificadas:

1) Parto e lactação

Sua ação no trabalho de parto é desencadeada pela pressão que o feto faz sobre o cérvix, quando se encaixa no final da gestação. Essa pressão ativa sinais que chegam ao hipotálamo, estimulando a liberação da ocitocina, que causa contrações. As contrações, por sua vez, aumentam a pressão, que aumenta sua liberação, até que se forma um ciclo vicioso e as contrações atingem o grau suficiente para a expulsão do feto.

O mesmo acontece nas mamas após a sucção durante a amamentação, o que provoca a descida do leite. Além disso, a ocitocina estimula o cuidado parental pelas fêmeas.

2) Comportamento Social e Sexual

A ocitocina modula os comportamentos sociais, aumentando o reconhecimento facial e das emoções, a cooperação, a cognição e a agregação social.

Ainda, aumenta a excitação sexual em homens e mulheres e facilita o orgasmo.

3) Estresse, ansiedade e depressão

Esse hormônio diminui a resposta a estímulos sociais estressores, a ansiedade diante deles e o medo, aumentando a confiança.

Além disso, baixos níveis de ocitocina estão associados a depressão.

4) Autismo e Esquizofrenia

Tem-se estudado a administração intranasal nesses casos, o que tem demonstrado melhora do comportamento repetitivo autista e aumento das interações sociais em ambas patologias.

Referências:

CAMPOS, Diana Catarina Ferreira de; GRAVETO, João Manuel Garcia do Nascimento. Oxitocina e comportamento humano. Revista de Enfermagem Referência, n. 1, p. 125-130, 2010.

LEE, Heon-Jin et al. Oxytocin: the great facilitator of life. Progress in neurobiology, v. 88, n. 2, p. 127-151, 2009.

NUCCI, Marina; NAKANO, Andreza Rodrigues; TEIXEIRA, Luiz Antônio. Ocitocina sintética e a aceleração do parto: reflexões sobre a síntese e o início do uso da ocitocina em obstetrícia no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.25, n.4, out.-dez. 2018, p.979-998.

SANTOS, Kamilla Krasinski Caron et al. Ocitocina, recompensa e a psicobiologia das decisões sociais. Revista PsicoFAE: Pluralidades em Saúde Mental, v. 6, n. 1, p. 61-76, 2017.

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