Gramática prescritiva

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Segundo Silva (1999, p.15), a gramática prescritiva ou normativa explicita as regras determinadas para uma língua qualquer. As normas gramaticais são prescritas com o intuito de que os seus usuários a utilizem, de modo adequado, nas diferentes situações de comunicação, no que tange à fala e à escrita. Impõe-se um padrão que deve ser respeitado e seguido por todos. Sob esse prisma, aplica-se a noção de “correto” ou “errado”. Por se tratar de um conjunto de normas, quem não as cumpre, incorre-se na prática de violação. E, para esse caso, a punição é a exclusão das práticas sociais, nas quais o emprego da norma culta é exigido; e, sobretudo, o preconceito por parte da sociedade, em relação aos que não se expressam em consonância com os preceitos gramaticais.

Em seu poema Pronominais, o escritor Oswald de Andrade critica o caráter prescritivo relativo à nossa língua.

Observe-o:

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Note que o poema é construído por meio do paralelo estabelecido entre o português considerado “correto”, que é ensinado no universo escolar e falado pelo mulato sabido (indivíduo conhecedor das regras gramaticais); e o português falado pelo o bom negro e o bom branco da nação brasileira, isto é, a grande maioria dos brasileiros que se expressa de acordo com a sua variante regional e as situações de comunicação cotidianas. É importante observar que o poema se inicia com a frase Dê-me um cigarro, escrita formalmente, encerrando-se com a forma coloquial Me dá um cigarro.

Outro exemplo de informalidade se encontra presente no verso Deixa disso camarada. Segundo a norma culta, temos: “Deixe (forma imperativa do verbo) disso, camarada”, a vírgula antecede o vocativo camarada. Porém, é imprescindível elucidar que o “erro” ocorre quando se concebe a língua como um todo homogêneo, constituída de apenas uma variante, a culta, ignorando-se as suas diversidades, decorrentes de fatores geográficos, etários, históricos e culturais.

Cabe enfatizar, também, que todos os falantes, independentemente dos conhecimentos inerentes à norma padrão que possuem, utilizam a informalidade por meio da adequação a determinadas situações de comunicação, em que se encontram inseridos. Nessa perspectiva, “Me dá um copo com água, por favor?”, a título de exemplo, é frequentemente pronunciada. Ninguém se expressa formalmente o tempo todo, visto que as circunstâncias é que definirão a forma adequada.

É pertinente salientar que a instituição de um conjunto de normas que rege a língua permite a inserção do indivíduo em práticas sociais mais formais. Porém, as regras não podem se restringir a si mesmas, uma vez que há a diversidade linguística presente no país, manifestada em seus ricos dialetos. Além disso, o conhecimento da estrutura de uma sentença, por exemplo, adquirido em virtude das vivências e registrado nas gramáticas, é crucial para que possamos nos entender. Ninguém diz: “Domingo jogo no vou ao próximo” no lugar de “Vou ao jogo no próximo domingo”.

O ensino da Língua Portuguesa, ao longo de sua história, caracterizou-se, sobretudo, pela disseminação das regras gramaticais, em consonância com a essência da Gramática Prescritiva. A recomendação atual (proposta já alguns anos) orienta para um trabalho pedagógico centrado na abordagem dos diferentes gêneros de texto, sugerindo que a gramática seja contemplada, tomando como referência o texto. Afinal, toda a comunicação se realiza por meio de um texto. O conhecimento da norma culta é importante, sim. Todavia, não podemos ter preconceito em relação àqueles que, por um motivo ou outro, não dominam o padrão. Respeitar a diversidade, que enriquece o nosso idioma, é reconhecer que a língua é muito mais que a sua variante padrão.

Referências:
ANDRADE, Oswald de Andrade. Pronominais. Disponível em: < http://pensador.uol.com.br/autor/oswald_de_andrade/ >. Acesso em: 22 de novembro de 2015.

SILVA, Taís Cristófaro. Fonética e Fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios. 2.ed. São Paulo: Contexto, 1999.

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