Narrador heterodiegético

Mestre em Linguística (USP, 2019)
Graduada em Letras (USP, 2016)

Sempre abrir.

Quem costuma ler livros já está acostumado a perceber diferentes tipos de narradores nas obras a que tem acesso. Existem aqueles que contam as suas próprias experiências, como se estivessem sentados com o seu leitor tomando um café.

Também há aqueles que contam uma história da qual fazem parte, mesmo não tendo protagonismo nos acontecimentos. Mas existem narradores que não participam do universo que é descrito. Esses são chamados de narradores heterodiegéticos. Isso porque eles estão ausentes na diegese, isto é, na narrativa.

Em vista disso, há diversas obras cujos narradores podem ser classificados dessa forma. A fim de esclarecer as suas características, cabe apresentar alguns exemplos a seguir, que fazem parte da literatura brasileira ou do canon universal.

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Graciliano Ramos é autor desse clássico brasileiro cujo narrador é heterodiegético. A narrativa trata de uma família de retirantes que sofrem com a seca da caatinga e buscam um lugar com condições melhores onde possam se estabelecer.

Nesse contexto, o narrador da história não participa das ações que são descritas. Assim, ele fala do que acontece sem interferir nas ações. Em diversos momentos da obra, tal figura trata dos personagens como se os observasse:

“Ele, a mulher e os filhos tinham se habituado à camarinha escura, pareciam ratos.”

Nessa frase em específico, percebe-se que o narrador fala apenas dos personagens, não se incluindo ao contexto que descreve. Durante toda a história, ele permanece ausente da narrativa.

O Primo Basílio, Eça de Queirós

A obra portuguesa O Primo Basílio também conta com um narrador heterodiegético. Ele fala sobre os acontecimentos que giram em torno da vida de Luísa, uma das personagens centrais da narrativa. Em nenhum momento, o narrador participa da história, interferindo nos conflitos do triângulo amoroso Jorge-Luísa-Basílio.

Veja na frase a seguir um exemplo de como é o posicionamento do narrador na obra:

“Luísa foi descerrar a janela, abrir o guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com cretones de um azul pálido.”

Como pode-se observar, o narrador descreve a cena sem fazer parte dela. Essa sua ausência na narrativa perdura em toda a obra. Assim, ele apenas observa o que acontece, sem atuar como personagem.

Iracema, de José de Alencar

Outro clássico da literatura brasileira que possui um narrador heterodiegético é a obra Iracema de José de Alencar. Esse livro trata da história de amor da índia Iracema e do colonizador Martim, português que chegou em terras americanas.

O narrador em nenhum momento se coloca como personagem do enredo. Em todo o tempo, ele fala sobre sobre o encontro entre o povo de Iracema e os portugueses. Isso porque por meio dele surgiu o povo brasileiro. A seguinte frase é um exemplo do posicionamento do narrador em toda a obra:

“Iracema voltara com as mulheres chamadas para servir o hóspede de Araquém, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.”

Como pode-se ver, o narrador fala da história como se fosse um observador e não assume, portanto, a postura de um personagem.

O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

A última obra mencionada nessa lista é O Cortiço. Nela, o narrador criado por Aluísio de Azevedo também é heterodiegético. Isso porque, ainda que ele mostre conhecer o dia a dia do cortiço que descreve e os seus moradores, ele não participa como personagem da história.

Veja a seguir um exemplo de como essa figura se posiciona durante toda a narrativa:

“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.”

Como pode-se ver, o narrador atua como um observador do que acontece, sem interferir no desenvolvimento da história que é contada.

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