Narrador homodiegético

Mestre em Linguística (USP, 2019)
Graduada em Letras (USP, 2016)

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Conhecido como narrador de 1ª ou 3ª pessoa, o narrador homodiegético não necessariamente precisa ser o protagonista da história, podendo ser identificado como personagem secundário ou até mesmo figurante.

Segundo a escritora e professora Ligia Chiappini Moraes Leite, em O Foco Narrativo (1985), a tipologia da narrativa criada pelo autor americano Norman Friedman, por exemplo, tem como objetivo levantar as principais questões para identificar e compreender o narrador da história. Assim, fica em perspectiva o que ele conta, de qual posição, quais os seus canais de informação, qual a distância que ele coloca o leitor da história, entre outras informações.

Como é classificado este tipo de narrador

Em seu estudo, Friedman identifica o “narrador testemunha” como aquele que narra a história de dentro da própria história. Trata-se do que chamamos aqui de narrador homodiegético, isto é, aquele com focalização interna.

Foco narrativo

Como mencionado, o foco narrativo aqui é interno. O narrador, que nesse caso é um personagem da história, mas não necessariamente o protagonista, por ser personagem, acaba tendo uma visão restrita dos fatos.

Isso acontece pois ele só pode narrar aquilo que está ao alcance da sua visão. Seja somente o que vê ou o que está dentro do seu campo de consciência. Logo, ele acaba não sendo um narrador privilegiado.

Exemplos do narrador em obras

Um exemplo clássico deste narrador homodiegético em obras conhecidas é o Dr. Watson nos contos de Conan Doyle em que o personagem principal é Sherlock Holmes. Neste tipo de foco narrativo, como dito anteriormente, o narrador limita-se a narrar uma história que qualquer outro hipotético poderia observar.

Yves Reuter, em A Análise da Narrativa (2002) estabelece que nesse foco narrativo, “o narrador conta sua própria vida retrospectivamente […] e não hesita em intervir em sua narrativa para explicar ou comentar sua vida e a maneira como ele a conta”.

Isso quer dizer que, normalmente, quando um narrador conta uma história com este foco, tende a incluir interpretações próprias.

Quando o narrador passa a descrever essas atividades no momento em que elas acontecem, ele está fazendo o que Ligia Chiappini descreve como perspectiva perpassando o personagem. Segundo ela, ele narra os acontecimentos com a sua visão, fruto de anotações e impressões que teve naquela viagem.

Quando se trata dos personagens, o narrador então nos conta detalhes de como eram e quais eram as suas principais características. Um exemplo é Uma Aventura no Brasil (1933), de Peter Fleming (1907-1971), onde o narrador demonstra:

“o José Diaz, um homem de eficiência e que era motorista de carro em Goiás e um excelente cozinheiro e que após a lembrança de seu táxi abandonado, resolve deixar a expedição e seguir de volta para onde tinha vindo”.

Dessa forma, o narrador em Uma Aventura no Brasil ao descrever os personagens, acaba criando todo um desenho do espaço, tempo e enredo, fazendo com que o leitor possa se situar na história. Mesmo que na situação da obra algumas características venham a ser negativas, ainda assim, há uma vantagem de fazer com que o leitor enxergue todas as visões.

Percebe-se então que o livro de Fleming está ancorado na narrativa homodiegética, onde o narrador descreve a história com suas anotações de viajante de uma exploração na região do Araguaia, no planalto central brasileiro.

A obra, que é narrada tanto em primeira quanto em terceira pessoa, acaba sendo um exemplo perfeito, pois ela enche o leitor de possibilidades e detalhes, como espaço, tempo e imaginário, bem como diversas outras abordagens.

O narrador descreve o espaço principal da narrativa da obra, que é a Amazônia, como um espaço rural, mas também, imaginário, com amplas possibilidades de visão, onde cada leitor pode entrar.

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