Ultrarromantismo

Mestra em Letras e Linguística (UFG, 2016)
Licenciada em Letras-Português (UFG, 2009)

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O Ultrarromantismo é um termo relacionado à estética literária da segunda geração romântica. Nessa fase do Romantismo, a produção literária é marcada pela postura exagerada e pelo arrebatamento sentimental dos poetas.

O Romantismo foi um movimento artístico-literário iniciado na Europa, no século XIX, um período marcado pelos ideais de liberdade do povo, de valorização do indivíduo, pela onda de progressos consolidada com as revoluções burguesas do século XVIII e pela interpretação da realidade pelo filtro da emoção.

Os princípios da arte romântica são a combinação entre a expressão das emoções à origialidade e ao subjetivismo. Os escritores românticos investiam em sua capacidade criativa para determinar a forma e o conteúdo de seus textos, distanciando-se das formas e padrões estéticos já consagrados.

O interesse por temas como o amor, a morte e a idealização absoluta da realidade são definidores do projeto literário ultrarromântico. Os poetas levaram ao extremo a expressão da natureza sombria, de sentimentos como pessimismo, medo e solidão. Incompreendidos e isolados da sociedade, os artistas incorporam a imagem de um herói romântico que defende valores burgueses como a honestidade e o direito à liberdade, em nome dos quais os poetas estão dispostos a sacrificarem a própria vida.

A morte é vista como um alívio para o sofrimento, para as desilusões e para o pessimismo dos poetas ultrarromânticos. A linguagem empregada nos poemas é marcada por termos de essência depressiva (virgens pálidas, imaculadas, longo pesadelo, imagens de anjos...) e também pela musicalidade das palavras.

A natureza e suas incontroláveis forças são os cenários preferidos dos poetas, entre os quais encontra, simbolicamente, acolhimento para seu sofrimento. O poeta Casimiro de Abreu é considerado o mais lido e declamado da segunda geração. Outros artistas de destaque são Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Junqueira Freire.

Características do Ultrarromantismo

Veja uma lista com as principais características que marcaram a poesia ultrarromântica:

  • Idealização amorosa;
  • Subjetivismo;
  • Valorização do passado heróico;
  • Exaltação da imaginação, dos sentimentos e dos símbolos nacionais;
  • A morte vista como fuga da realidade, portanto, é idealizada, considerada um alívio aos males do mundo;
  • O sonho como espaço de fuga e projeção das utopias;
  • Preferência pelo exótico;
  • Exagero sentimental;
  • Liberdade formal dos textos.

Leia a seguir um poema de Junqueira Freire e observe de que maneira as características da estética ultrarromântica aparecem nos textos.

Morte

(Hora de delírio)

Pensamento gential de paz eterna
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dous fantasmas que a existência formam,
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz enterna
Amiga morte, vem. Tu és apena
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

Nunca temi tua destra,
Não vou o vulgo profano;
Nunca pensei que teu braço
Brande um punhal sobr'-humano.

Nunca julguei-te em meus sonhos
Um esqueleto mirrado;
Nunca dei-te, pra voares,
Terrível ginete alado.

Nunca te dei uma fouce
Dura, fina e recurvada;
Nunca chamei-te inimiga,
Ímpia, cruel, ou culpada.

Amei-te sempre: — pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra, - esse elemento
Que não se sente dos vaivéns da sorte.

Para tua hecatombe de um segundo
Não falta alguém? — Preencha-a comigo:
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Miríadas de vermes lá me esperam
Para nascer de meu fermento ainda,
Para nutrir-se de meu suco impuro,
Talvez me espera uma plantinha linda.

Vermes que sobre podridões refervem,
Plantinha que a raiz meus ossos fera,
Em vós minha alma e sentimento e corpo
Irão em partes agregar-se à terra.

E depois nada mais. Já não há tempo,
nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada — esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

Facho que a morte ao lumiar apaga,
Foi essa alma fatal que nos aterra.
Consciência, razão, que nos afligem,
Deram em nada ao baquear em terra.

Única idéia mais real dos homens,
Morte feliz — eu quero-te comigo,
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Também desta vida à campa
Não transporto uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.

E como um autômato infante
Que ainda não sabe mentir,
Ao pé da morte querida
Hei de insentato sorrir.

Por minha face sinistra
Meu pranto não correrá.
Em meus olhos moribundos
Terrores ninguém lerá.

Não achei na terra amores
Que merecessem os meus.
Não tenho um ente no mundo
A quem diga o meu - adeus.

Não posso da vida à campa
Transportar uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.

Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:
Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

FREIRE, Junqueira. In: BANDEIRA, Manuel (Org.). Antologia dos poetas brasileiros: fase romântica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.p. 218-219.

Nos versos de Junqueira Freire é possível observar que o desejo de amar é contraposto ao desejo de morrer. A morte é amiga do poeta, pois finaliza as doenças do corpo e da alma pela promessa de descanso eterno.

O fascínio pela temática fúnebre fez com que jovens poetas buscassem fugir da realidade pela ilusão das drogas e do álcool. Como resultado, muitos deles morreram ainda na juventude. Esse comportamento autodestrutivo e suas consequências ficaram conhecidos como “mal do século”.