A alma encantadora das ruas

João do Rio é um autor pouco conhecido, ou pelo menos foi, até o início do século XXI. Jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo, seu nome verdadeiro era João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1910, e passou toda a sua vida na então capital federal, Rio de Janeiro, morrendo em 1921 aos 39 anos.

AlmaEncantcapa1908Depois de cem anos da publicação da maior parte de sua obra, esta passa atualmente por uma redescoberta e valorização, especialmente pela capacidade de observação que o autor demonstra em seu texto. Assim, baseada nesta capacidade de enxergar o peculiar em meio à sociedade da antiga capital brasileira, duas obras suas, “As religiões do Rio”, e “A alma encantadora das ruas” são hoje vistas como preciosos documentos antropológicos de sua época.

A alma encantadora das ruas é o terceiro livro de João do Rio, publicado em 1908. Trata-se de uma série de 37 crônicas e reportagens dedicadas às ruas da cidade do Rio de Janeiro e seus personagens. No início do século, com as primeiras luzes da modernidade, o Rio já se revelava, aos olhos mais sensíveis, uma cidade multifacetada, fascinante, efervescente. Nela, estão presentes as figuras que povoam a cidade mas são constantemente ignoradas, como os mendigos, trabalhadores comuns e meninos de rua. As crônicas trazem o significado e a própria essência da rua na modernidade.

Diferente da realidade que presenciamos hoje, a essência da identidade carioca mostrada no livro é crítica, mas não deixa o bom humor de lado, ressaltando a capacidade do homem comum de criar soluções de sobrevivência, sua paixão pela música, a riqueza do imaginário social, a espontaneidade da mistura cultural que havia não apenas no Rio, mas em todo o Brasil.

O livro de João do Rio traz reminiscências decadentistas, mas ao mesmo tempo lança um olhar deslumbrado, onde novas relações sociais estão sendo desenhadas no coração daquela seria mais tarde chamada a Cidade Maravilhosa. É uma cidade em transformação, na qual coabitam personagens e espaços que, ao mesmo tempo que sobrevivem, já não existem como antes.

Nas ruas observadas pelo autor, há a violência, a pobreza, os dramas, mas esses pontos não parecem eclipsar a sensação de otimismo puro e ingênuo, que hoje em dia, ao que parece, abandonou as ruas de toda grande cidade brasileira, fechada em si própria em meio ao conformismo de uma emergente classe média, protegida da violência rampante pelas casas de enormes muros e portões.

A obra, por estar em domínio público, pode ser baixada pelo link:

http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/alma_encantadora_das_ruas.pdf

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