Abate de animais para consumo

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

As exigências dos consumidores de produtos de origem animal (POA) não têm se limitado à apenas questões sanitárias, a preocupação com o bem-estar animal (BEA), em todas as partes da cadeia produtiva, tem aumentado substancialmente. Estudos mostram que o BEA está diretamente vinculado à qualidade do produto final. Animais submetidos ao estresse antes do abate, liberam toxinas na corrente sanguínea que podem alterar a cor, a consistência e o período de validade da carne.

Os cuidados com os animais de produção devem se iniciar ainda na propriedade rural, com a seleção e o preparo das matrizes reprodutoras. As práticas de sanidade, vacinação, desverminação e nutrição balanceada promovem o nascimento de filhotes saudáveis e resistentes aos desafios do meio ambiente. Com essas ações já se tem uma redução de perdas econômicas por natimortos ou indivíduos debilitados.

A criação e o manejo de engorda desses animais deve ser feita de forma ética e humanizada; deve-se proporcionar um ambiente adequado às necessidades de cada espécie, de forma que possam expressar seu comportamento normal. O fornecimento de água e alimentos de qualidade, o conforto térmico e a proteção contra adversidades climáticas ou possíveis predadores também devem ser levados em conta.

O pecuarista e também o consumidor precisam se atentar ao encaminhamento que será dado a esses animais, desde o transporte até o processo de matança. As atividades de embarque, a distância a ser percorrida, as condições das rodovias e dos veículos geram bastante estresse nos animais, porém pode-se reduzi-los por meio da conscientização e capacitação de todas as pessoas envolvidas nessas etapas. Deve-se minimizar o uso de bastões de choque para guiar os animais, evitar gritos e agressões no manejo, além de se priorizar veículos estruturados, viagens em períodos mais frescos do dia e paradas em locais sombreados.

No Brasil, há legislações específicas voltadas para o BEA e para a sanidade dos POA, passíveis de penalidades por infrações, que variam de advertências, multas ou até a suspensão das atividades laborais; tem-se médicos veterinários do serviço oficial para fiscalizarem as atividades frigoríficas. No abatedouro-frigorífico tem-se toda uma logística desde a chegada do rebanho até a distribuição de seus produtos cárneos. Os animais recém chegados ficam confinados por um período, para se restabelecerem e se hidratarem; nessa etapa tem-se a inspeção ante-mortem dos mesmos. Posteriormente, eles são encaminhados para o banho de aspersão e para o abate, o qual deve ser o mais humanitário possível, porém essa prática frequentemente não ocorre em matadouros clandestinos.

Para cada espécie há um método correto de insensibilização pré-sangria, pois a morte dos animais ocorre pela hipovolemia. Dessa forma, é imprescindível verificar se o atordoamento foi suficiente e não há sinais de dor ou sofrimento no processo de morte. Em bovinos utiliza-se pistolas de dardo cativo, suínos e aves recebem eletronarcose. Insensibilizados, os animais são pendurados pelos membros posteriores para a etapa da sangria, que é realizada por meio da incisão dos grandes vasos, que emergem do coração. Caso haja suspeita de falha no atordoamento, o mesmo deve ser refeito imediatamente.

Na área suja da sala de matança, além da sangria ocorre também a retirada do tegumento da carcaça, que segue para a área limpa, local destinado à evisceração, limpeza, corte e tratamento da carcaça. Destaca-se que todo esse processo deve ser fiscalizado pela inspeção oficial, que libera ou condena os produtos cárneos. Nessa etapa pode-se dimensionar as perdas econômicas por lesões, contusões, fraturas, alterações de pH, coloração ou consistência da carne, decorrentes de doenças, estresse e maus tratos.

Faz-se necessário compreender os benefícios que o BEA proporciona a toda a cadeia produtiva, pois as novas variáveis do mercado tem demandado uma reestruturação do sistema de comercialização de POA. O mercado externo, por exemplo, já exige garantias de produtos oriundos de sustentabilidade e BEA, portanto os pecuaristas e os proprietários de frigoríficos deverão se adequar a essa realidade, para se manterem nesse nicho.

Referências

LUDTKE, C. B. et al. Abate humanitário de bovinos. WSPA Brasil – Sociedade Mundial de Proteção Animal. Rio de Janeiro : WSPA, 2012.

HERNANDES, J. F. M. Bem-estar animal na cadeia produtiva bovina: da propriedade rural ao abate. In: 48º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural. Campo Grande 2010.

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