Catarata em cães e gatos

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

A catarata é uma patologia do sistema ocular, que acomete tanto animais de raças puras, quanto os mestiços, e é uma das causas mais freqüentes de oftalmopatia na medicina veterinária. Essa afecção caracteriza-se pela turvação progressiva do cristalino, o que interfere diretamente na absorção da luz que chegará a retina, promovendo a perda da visão.

Anatomicamente, o globo ocular dos animais vertebrados é constituído por três túnicas: a externa ou fibrosa, composta pela córnea e a esclera, a média ou túnica vascular, em que se encontra a íris, o corpo ciliar e a coróide e por último tem-se a camada interna ou nervosa, composta pela retina. De acordo com a espécie animal, o bulbo ocular proporciona uma visão mono ou binocular.

Além disso, internamente, o sistema ocular é dividido em 3 compartimentos: a câmara anterior, posicionada entre a íris e a córnea; a câmara posterior, entre a íris e o cristalino e o espaço vítreo, situado atrás do cristalino e circundado pela retina. Essas câmaras são preenchidas pelo humor aquoso, um fluido límpido produzido pelo corpo ciliar, por meio de um processo de ultrafiltração sanguínea para a retenção de água, cloreto de sódio e proteína.

O cristalino ou lente é uma estrutura transparente, avascular, que apresenta formato biconvexo e discóide. Suas propriedades ópticas, como a transparência e o poder refrativo são essenciais para sua funcionalidade: transmitir e focalizar a luz na retina, tornado os objetos nítidos. Para tanto necessita-se de um aporte constante de oxigênio e nutrientes, entretanto devido à sua característica avascular, o seu metabolismo é totalmente dependente do humor aquoso. Dessa forma qualquer alteração na composição do mesmo, provoca distúrbios no cristalino, como por exemplo, a catarata.

Dessa forma, a catarata é a opacidade do cristalino e sua cápsula, desencadeada por transtornos metabólicos que envolvam alterações bioquímicas, principalmente relacionadas à coagulação das proteínas. Isso gera uma turbidez indevida, a qual dificulta a passagem de luz para dentro do olho. A etiologia pode ser primária (hereditárias), secundária (congênita, traumática, diabética, senil, tóxica, por doenças oculares, etc) ou ainda de origem desconhecida.

A catarata congênita geralmente está correlacionada à persistência de vasos perilenticulares e suas adesões à cápsula lenticular, e também à inflamações intraoculares perinatal (de causa exógena). Já a inflamação da úvea pode desencadear a catarata, em razão das alterações na composição do humor aquoso, que o torna impróprio para a nutrição da lente.

Assim como nos seres humanos, o processo de envelhecimento dos animais leva a formação das cataratas senis. A fisiopatologia ainda é obscura, entretanto suspeita-se que resulte da depleção do sistema antioxidante endógeno da lente. Outra forma de catarata que acomete os animais é a traumática, principalmente em razão do comportamento ativo e agitado de algumas raças, por brigas e competições, ou ainda pelo formato anatômico do globo ocular de certas raças. Lesões oculares por corpo estranho atingem diretamente a lente, provocando contusão ou perfuração dessa, o que geralmente é unilateral, com opacidade focal ou difusa.

As doenças metabólicas como a diabetes melittus (DM), o hipoparatiroidismo e a deficiência nutricional de cálcio cursam com a formação da catarata. A DM é a doença endócrina mais comuns em cães e ela promove a opacidade da lente de forma aguda, bilateral, simétrica e progressiva. Os animais diabéticos apresentam uma maior concentração de glicose no sangue, que culmina em uma hiperosmolaridade no interior da lente. Os caninos jovens diabéticos são bastante propensos a esse tipo de catarata, enquanto os felinos são mais resistentes, essa diferença se dá pela atividade da aldose redutase intralenticular, uma enzima conversora de glicose em sorbitol, que é menor nos gatos.

O diagnóstico da catarata pode ser obtido por meio do histórico do animal, em que frequentemente os tutores relatam alterações comportamentais, colisão com os objetos da casa e alteração no aspecto do olho. O paciente deve ser submetido a exames sistêmicos e oftálmicos, além disso é necessário um exame minucioso do sistema ocular, com testes específicos que demandam bastante experiência.

É importante a realização do exame de fundo de olho para a inspeção da retina, porém devido à opacidade lente é preciso recorrer à ultrassonografia, ecografia ocular e também à eletrorretinografia. Esses exames fazem o diagnóstico diferencial entre a catarata e outras patologias oculares como a esclerose lenticular, o que permite o estabelecimento do tratamento e do prognóstico.

O tratamento da catarata consiste no procedimento cirúrgico de remoção dos cristalinos acometidos, por meio da facectomia extracapsular ou com o uso da facoemulsificação. A taxa de recuperação total da visão do animal é quase completa. Porém, em na catarata secundária, como a diabética, o controle glicêmico é imprescindível para reduzir-se a formação da catarata, pois assim que ela se inicia, o processo pode ser irreversível.

Referências:

Andrade AL. Semiologia do Sistema Visual dos Animais Domésticos. Semiologia Veterinária. A Arte do Diagnóstico. 3ed. São Paulo-SP: Editora Rocca Ltda., 2014, v1,689-722p.

SILVA TMF. Catarata em cães: Revisão de literatura. PUBVET. Londrina, v4(2):722, 2010.

Neto IR. Caracterização de cataratas numa população canina, em ambiente hospitalar. [Dissertação]. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Faculdade de Medicina Veterinária. Lisboa, 2017.

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