Eclampsia em cadelas

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

A eclampsia é uma urgência reprodutiva, de natureza metabólica, que pode acometer cadelas prenhes, principalmente, de raças pequenas, primíparas ou portadoras de grandes ninhadas. Essa afecção também é conhecida como tetania puerperal ou hipocalcemia, em razão da queda na concentração plasmática de cálcio, no organismo.

As principais causas desta afecção incluem: má nutrição, hipoalbuminemia, lactação e doença da glândula paratireóide, sendo essa última uma condição bastante rara em cães. O principal fator para o desencadeamento da depleção de cálcio no sangue, em fêmeas caninas, é o aporte de cálcio no leite para suprir as necessidades dos filhotes.

O cálcio é um mineral essencial nos diversos eventos fisiológicos do organismo, como por exemplo, na contratilidade muscular geral e cardíaca, na motilidade gastrointestinal, na secreção de hormônios e de neurotransmissores, na coagulação sanguínea, na condução nervosa e do tônus vasomotor, além de ser o componente essencial da estrutura óssea. O cálcio utilizado pelo organismo é proveniente da dieta oferecida aos animais e o seu controle no organismo ocorre por meio da ação do paratormônio (PTH), do calcitriol (1,25[OH]2 D3) e da calcitonina.

O PTH é um hormônio produzido pelas células principais das glândulas paratireóides e a calcitonina é proveniente da tireóide. Eles são os responsáveis pela manutenção dos níveis normais de cálcio na circulação e atuam de forma antagônica. A elevação do nível de cálcio no sangue estimula a tireóide a secretar calcitonina, o que induz a deposição de cálcio nos ossos, a eliminação pela urina e a inibição de sua absorção pelo intestino. Dessa forma, tem-se uma diminuição da taxa de cálcio sanguínea.

De modo contrário, há uma interrupção na secreção de calcitonina, decorrente da queda na taxa de cálcio, o que estimula as glândulas paratireóides a secretarem o PTH. Os efeitos desse incluem: a liberação de cálcio ósseo para a corrente sanguínea, a diminuição de sua excreção renal e o estímulo da absorção do cálcio pelo intestino. Esse controle é necessário para se manter a taxa sérica do cálcio entre 10 e 15 mg/dL, em cães adultos hígidos.

A gestação e a lactação podem resultar no decréscimo considerável das reservas de cálcio do organismo da cadela, em razão das exigências da mineralização do esqueleto fetal e a necessidade do aporte para o leite. A deficiência de cálcio na dieta das fêmeas prenhes, aliada a rações de baixa qualidade predispoem à eclampsia puerperal. Curiosamente, não deve-se fazer uma suplementação de cálcio em excesso, pois a mesma induz à uma queda na ação da paratireóide, o que também induz a hipocalcemia.

O principal sinal apresentado nas cadelas acometidas é a tetania, devido a baixa concentração de cálcio extracelular provocar a hiperexcitabilidade do sistema nervoso. Pode-se observar ainda taquipneia, sialorreia, rigidez de membros pélvicos e torácicos, tremores e convulsões.

O histórico de parto recente associado à contrações musculares tônicas intermitentes caracterizam a tetania puerperal, que necessita de tratamento imediato, haja vista que a evolução dos sinais clínicos pode provocar a morte do animal. Deve-se administrar gluconato de cálcio 10%, por via intravenosa de forma lenta e cuidadosa, monitorando-se minunciosamente a função cardíaca, em razão do efeito cardiotóxico do cálcio, que pode provocar fibrilações ventriculares e até a parada cardíaca. Ademais, deve-se avaliar a taxa de glicose do animal, pois o surgimento de hipoglicemia decorrente de hipocalcemia não é incomum.

As fêmeas tratadas em tempo hábil apresentam prognóstico favorável, entretanto é necessário instituir uma dieta adequada à paciente, para suprir a demanda nutricional da ninhada. Para se evitar esse distúrbio metabólico é fundamental orientar os tutores da necessidade de uma suplementação adequada do animal, desde o início de sua gestação. As dietas ideais são aquelas balanceadas com proporções 1:1 a 1,2:1 de cálcio e fósforo, e elas podem ser encontradas no mercado pet.

Referências:

Dimitrov et al. A case report of eclampsy in dog. Tradition and Modernity in Veterinary Medicine. v1,n1(1):39–43, 2016.

Gonçalves et al. Hipocalcemia Puerperal em Cão - Relato de Caso. Revista Eletrônica Biociências, Biotecnologia e Saúde. Curitiba. n15:52-54p, 2016.

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