Espirro reverso em cães

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

O espirro reverso ou respiração paroxística inspiratória caracteriza-se por um período de dispneia inspiratória, de forma intensa (paroxística), repetitiva, mas de caráter autolimitante. Trata-se de uma uma resposta fisiológica a uma irritação física ou química na mucosa dorsal.

O sistema respiratório divide-se em duas porções: o trato respiratório superior (TRS) e o inferior (TRI). O primeiro é composto por nariz, boca, faringe (nasofaringe, orofaringe e laringofaringe), laringe e traqueia superior. Já o trato inferior corresponde à traqueia (porção inferior), brônquios, bronquíolos, pulmões e alvéolos.

O ar inspirado pode conter inúmeras partículas irritantes ou patogênicas, como micro-organismos, poeira, esporos de fungos, pólen, gases tóxicos, cinzas e produtos de combustão. Assim, o trato respiratório apresenta propriedades anatômicas e fisiológicas, que variam conforme a espécie animal, mas que formam um mecanismo protetor do ar inalado. Dentre essas defesas cita-se as barreiras mecânicas, a atividade humoral, a função imune celular e atividade fagocítica.

O primeiro mecanismo de defesa do aparelho respiratório é o mecânico e se inicia nas narinas. A cavidade nasal é o canal de passagem do ar inspirado, que será direcionado aos alvéolos pulmonares. Ela apresenta como funções a umidificação e o aquecimento do ar inalado, bem como o bloqueio da passagem de grandes partículas para as porções inferiores do trato respiratório, por meio dos filamentos ciliares (cílios) e do turbilhonamento aéreo. Em seguida tem-se a faringe, que conduz o ar para a laringe, além de encaminhar o alimento para o esôfago.

A laringe dos mamíferos regula o volume de ar durante a respiração e detecta corpos estranhos, durante a deglutição. A epiglote é uma estrutura cartilaginosa, situada acima da laringe, que tem a função de vedá-la para impedir a passagem de alimento para os pulmões, durante a deglutição, o que provocaria o engasgo e também uma pneumonia por aspiração.

Outros meios de defesa do trato respiratório são a filtração aerodinâmica e o transporte mucociliar. A traqueia é revestida por um tecido colunar pseudoestratificado ciliado, que é umidificado pelas secreções das células caliciformes e das glândulas traqueais secretoras de muco. Em conjunto, esses elementos englobam as partículas nocivas e efetuam a propulsão do muco em direção à orofaringe.

Há ainda os mecanismos responsáveis pela expulsão dos agentes irritativos penetrantes e são eles a tosse e o espirro (esternutação). Esse último consiste-se na resposta reflexa ao estímulo nocivo na cavidade nasal, que se caracteriza por uma curta e profunda inspiração, seguida de uma expiração brusca e violenta pelas fossas nasais. A esternutação é acompanhada de contrações da musculatura mímica da face, contração da musculatura faríngea, diafragmática e intercostal, além de ruído distintivo.

O espirro reverso é mais visualizado em animais braquicefálicos, ou seja, aqueles que apresentam o encurtamento do focinho, como por exemplo os cães das raças Pug, Shih-Tzu, Bulldog, Boxer e gatos Persa. Não há predisposição por idade ou sexo e as causas estão mais relacionadas a processos alérgicos, além disso, o padrão tende a ser autolimitante. Os sinais apresentados pelos animais, durante o episódio em questão, caracterizam-se por extensão do pescoço e focinho, abertura ampla dos olhos, abdução dos cotovelos e emissão de ruído.

Essa esternutação atípica é bastante relatada pelos tutores dos animais acometidos, pois tem-se a impressão de que o pet encontra-se em angústia respiratória ou tosse crônica. Porém trata-se de uma resposta fisiológica do organismo a uma irritação na mucosa respiratória.

Não há tratamento para a correção desse tipo de espirro, mas se a frequência dos episódios estiver aumentada e os animais estiverem apresentando cianose de mucosas ou sinais de envolvimento viral ou bacteriano, como febre, descarga nasal, apatia, anorexia é preciso realizar exames específicos e fazer o tratamento da causa primária.

Referências:

STOLF LC. Clínica de Pequenos Animais. 2015.

LOPES AG et al. Mecanismos de defesa do aparelho respiratório. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto. Rio de Janeiro, ano 9, 2010.

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