Mastite é a inflamação da glândula mamária. Na maioria das vezes é causada por bactérias que entram pelo canal da teta. Pode aparecer em qualquer fêmea de mamífero, inclusive cadelas, gatas e mulheres que amamentam, mas tem maior importância econômica nos animais leiteiros: vacas, cabras, ovelhas e búfalas. Na pecuária de leite, é a doença que mais causa prejuízo no mundo.
O prejuízo vem de várias frentes. A mastite reduz a produção de leite e piora sua qualidade. Obriga a descartar o leite dos animais em tratamento, gera gastos com remédios e veterinário e leva ao descarte precoce de vacas.
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O que causa a mastite
Os principais agentes são bactérias. Eles costumam ser divididos em dois grupos, conforme a origem.
Agentes contagiosos
Vivem principalmente no úbere e na pele das tetas e passam de uma vaca para outra durante a ordenha, pelas mãos do ordenhador, pelos panos usados para limpar várias vacas e pelas teteiras. Os mais importantes são Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae e os micoplasmas. Costumam causar infecções duradouras e subclínicas.
Agentes ambientais
Vivem no ambiente: esterco, cama, barro e água. Entram na teta principalmente entre as ordenhas, quando o canal ainda está aberto e a vaca se deita em local sujo. Os exemplos mais comuns são Escherichia coli, Klebsiella e Streptococcus uberis. Tendem a causar casos clínicos, às vezes graves.
Fungos, leveduras e algas do gênero Prototheca também causam mastite, em geral associada a falhas de higiene ou à aplicação de medicamentos na teta sem cuidados de assepsia.
Fatores de risco
- falta de higiene na ordenha e no ambiente onde as vacas ficam;
- equipamento de ordenha mal regulado ou sem manutenção, que machuca a ponta das tetas;
- ferimentos nas tetas e no úbere;
- alta produção e o início da lactação, quando as defesas da vaca estão mais baixas;
- o período seco, principalmente as primeiras e as últimas semanas;
- presença de vacas infectadas no rebanho, sem identificação nem separação.
O que acontece no úbere
Ao alcançar o interior da glândula, as bactérias se multiplicam e liberam toxinas e enzimas que lesam o tecido produtor de leite. O organismo reage enviando glóbulos brancos, sobretudo neutrófilos, para o local. Essas células, junto com células que se soltam do próprio tecido mamário, formam as chamadas células somáticas do leite. Quanto mais intensa a inflamação, maior a contagem delas.
Com a inflamação, entram no leite componentes do sangue, o pH fica mais alcalino e caem os teores de lactose, gordura e caseína. Por isso, o leite de vacas com mastite rende menos queijo e estraga mais rápido.
Formas da doença
Mastite clínica
É a forma visível. O leite tem grumos, pus, flocos, aspecto aguado ou estrias de sangue. O quarto afetado pode ficar inchado, quente, avermelhado e dolorido. Nos casos mais graves, comuns nas infecções por E. coli, a vaca tem febre, perde o apetite, fica desidratada e pode morrer em poucos dias. Infecções crônicas podem deixar abscessos, endurecimento e perda definitiva do quarto.
Mastite subclínica
O leite parece normal e a vaca não mostra sinais, mas há infecção e aumento de células somáticas. É a forma mais frequente: estima-se que, para cada caso clínico, existam muitos subclínicos. Também é a que mais causa perdas, justamente porque passa despercebida. Uma contagem acima de cerca de 200 mil células por mililitro no leite de uma vaca já indica inflamação provável.
Diagnóstico
A mastite clínica é identificada na própria ordenha. O teste da caneca de fundo escuro consiste em tirar os primeiros jatos de cada teta em uma caneca preta ou telada, o que deixa os grumos fáceis de ver. Deve ser feito em todas as ordenhas.
Para a forma subclínica, os principais testes são:
- CMT (California Mastitis Test): mistura-se o leite de cada teta a um reagente em uma raquete com quatro compartimentos. Quanto mais células somáticas, mais o leite forma gel. O resultado vai de negativo e "traços" a uma, duas ou três cruzes. É barato e feito na fazenda.
- Contagem de células somáticas (CCS): feita em laboratório, com amostras de cada vaca ou do tanque de resfriamento. É o principal indicador da saúde do úbere no rebanho.
- Cultura microbiológica: identifica o agente causador e ajuda a escolher o tratamento e as medidas de controle.
No Brasil, a Instrução Normativa nº 76/2018, do Ministério da Agricultura, estabelece que o leite cru refrigerado do tanque deve ter, no máximo, 500 mil células somáticas por mililitro, calculado como média geométrica de três meses.
Tratamento
A mastite clínica costuma ser tratada com antibióticos aplicados dentro da teta (via intramamária). Antes da aplicação, o quarto é esgotado e a ponta da teta é desinfetada com álcool. Nos casos graves, a vaca também recebe antibiótico injetável, anti-inflamatório e soro. O ideal é que a escolha do produto se baseie na cultura do leite, sob orientação do veterinário.
Os casos leves causados por algumas bactérias, como a E. coli, muitas vezes se curam sozinhos. Por isso, muitas fazendas fazem cultura na própria propriedade para tratar apenas quem precisa, o que diminui o uso de antibióticos e o risco de resistência bacteriana.
Um ponto obrigatório é o período de carência: o leite das vacas tratadas não pode ser vendido até terminar o prazo indicado na bula, para não levar resíduos de antibiótico ao consumidor.
Prevenção e controle
Na mastite, prevenir dá muito mais resultado do que tratar. As medidas recomendadas incluem:
- ordenhar com mãos limpas e luvas, descartando os primeiros jatos;
- fazer o pré-dipping, a imersão das tetas em desinfetante antes da ordenha, e secá-las com papel-toalha individual;
- fazer o pós-dipping, a imersão em desinfetante logo depois da ordenha, enquanto o canal da teta está aberto;
- manter as vacas em pé após a ordenha, oferecendo alimento no cocho, para dar tempo de o canal se fechar;
- estabelecer uma linha de ordenha: primeiro as vacas sadias, depois as que já tiveram mastite e, por último, as doentes;
- fazer a manutenção periódica da ordenhadeira;
- manter camas, piquetes e corredores limpos e secos;
- usar a terapia da vaca seca, com antibiótico intramamário e selante de teta na secagem;
- descartar vacas com mastite crônica que não respondem ao tratamento.
Para tomar decisões, o produtor acompanha a CCS individual e do tanque, além do número de casos clínicos por mês.
Mastite e saúde humana
Algumas bactérias causadoras de mastite, como o Staphylococcus aureus, produzem toxinas que podem causar intoxicação alimentar. Esse é um dos motivos para consumir apenas leite e derivados inspecionados, e nunca leite cru. A pasteurização elimina as bactérias, mas não todas as toxinas que elas já produziram.
Referências
- CORRÊA, W. M.; CORRÊA, C. N. M. Enfermidades infecciosas dos mamíferos domésticos. 2. ed. Rio de Janeiro: Medsi, 1992. p. 117-130.
- Merck Veterinary Manual. Mastitis in Cattle.
- Ministério da Agricultura e Pecuária. Instrução Normativa nº 76, de 26 de novembro de 2018.
- Ministério da Agricultura e Pecuária. Programa Nacional de Qualidade do Leite.
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/medicina-veterinaria/mastite-em-animais/