Alfabetização em isolamento social

Professora de História

Sempre abrir.

O ano era 2020. E o mundo estava caótico. Em meio a tantas adversidades, professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental – e até mesmo os da Educação Infantil – se viram em frente a um desafio para o qual ninguém estava preparado: alfabetizar crianças à distância em um contexto de medo.

Até então, as instituições de Ensino Superior formavam professores desta etapa para trabalharem em sala de aula tendo contato diário com as crianças. Olho no olho, dando a mão quando algum pequeno precisa, recebendo aquele abraço de encher o coração e fortificar a alma. Estavam preparados para estimular in loco os cinco sentidos das crianças e, com isso, desenvolver a aprendizagem para chegar, então, à alfabetização.

E, de repente, todos em casa. Escolas fechadas. Pessoas assustadas com a incerteza. Cada seio familiar com uma caraterística diferente – muitas vezes com pais analfabetos – tendo que ajudar suas crianças a executarem as atividades enviadas pelos professores.

Na outra ponta, professores igualmente assustados frente a tantas incertezas, tendo que planejar atividades para estudantes os quais, em muitos casos, pouco conheciam. Como mensurar o êxito?

Em meados de 2020, conversei com várias professoras que estavam atendendo crianças na faixa etária dos 4 aos 9 anos, com realidades distintas, sobre o desafio de alfabetizar em meio à pandemia e publiquei algumas entrevistas no meu blog (ceciliaceleste.blogspot.com) no mês de agosto, sendo retomado o bate-papo no final do ano letivo e os encerramentos das entrevistas publicados entre os meses de dezembro de 2020 e janeiro de 2021.

No que se refere ao perfil dos estudantes atendidos por essas professoras, destaca-se a heterogeneidade. Assim como teve uma turma pequena de estudantes surdos (escola especial para surdos) na qual havia um certo padrão de público, teve também uma turma de escola da zona rural. Além disso, em alguns casos, dentro da mesma turma, havia distintos perfis: como uma com 20 matriculados, sendo 2 de inclusão e 4 sob investigação, e outra turma com crianças oriundas de realidades socioeconômicas bem diferentes entre si, o que torna o processo ainda mais complexo para as docentes. Além disso, dentro da mesma turma, ingressaram estudantes não alfabetizados, já alfabetizados ou aqueles em processo de alfabetização.

Geralmente, em sala de aula, esse diagnóstico e o acompanhamento era feito com grande perícia pelas professoras as quais, inclusive planejavam diferentes estratégias para o mesmo espaço. À distância, em especial nos casos em que havia pouco contato com as crianças e suas famílias, esse trabalho se tornou muito mais complexo. Como ter certeza se as atividades entregues na escola teriam sido realmente feitas pelas crianças? Como detectar quais as reais dificuldades dos pequenos na aprendizagem?

Em contrapartida, nos casos em que houve uma interação efetiva entre as professoras e os estudantes através das mídias digitais (como Whatsapp, videochamadas, aulas online etc), foi possível acompanhar o desenvolvimento estudantil. Cabe salientar que as entrevistas publicadas no blog ceciliaceleste.blogspot.com foram somente as oriundas de escolas públicas que não tinham estrutura digital para essa finalidade, portanto o investimento com equipamentos de informática e internet para atender essa demanda ficou às expensas dos professores e das famílias. Ou seja, crianças cujas famílias não tinham como arcar com esses recursos, receberam o material impresso. Neste caso, a conversa entre a professora e a família ocorria apenas em poucos minutos nos dias de entregas e devoluções de tarefas.

Outra estratégia utilizada para estimular as crianças e a participação das famílias no processo de aprendizagem foi o uso de jogos pedagógicos. Aliás, a aproximação dos pais na educação dos filhos, estimulada pelo isolamento social trouxe à tona outra característica: a escola e as professoras passaram a ser vistas com mais importância por muitas famílias, pois se percebeu que o processo educacional não é tão simples quanto muitos julgavam.

Quanto à observação das aptidões dos estudantes pelas professoras, parece que houve uma expansão nos aspectos. Como o mundo mudou, a comunicação através da leitura e escrita digital, além dos recurso de vídeo, se destacaram entre o que se observou positivamente nas crianças que têm acesso a tais meios. Inclusive, a interação das famílias pareceu aumentar. Em uma das entrevistas, a professora relatou que os estudantes que eram mais dispersos se viram cobrados pelos pais, os quais se surpreenderam com o comportamento dos filhos. Houve uma inevitável aproximação das famílias com a educação dos pequenos.

Foto ilustrativa: UCHUDA BOONPLIEN / Shutterstock.com

É lógico que, no contexto de 2020, os critérios de avaliação tiveram que ser menos rígidos, focando muito mais na participação dos estudantes do que nos aspectos cognitivos em si. De modo geral, foi bastante perceptível que havia nas crianças o desejo de aprender a ler. E a tecnologia ajudou bastante nesse estímulo, em muitos casos, reproduzindo online experiências semelhantes às da sala de aula.

Como foi um tempo de muita incerteza e angústia em virtude da pandemia de Covid-19, os aspectos emocionais também sofreram alteração em muitos casos, tanto é que nem todas as entrevistas realizadas tiveram autorização de publicação. Houve casos de alto impacto emocional.

Tradicionalmente, a formação superior docente abrange disciplinas de psicologia da educação a fim de preparar os profissionais para lidar com diferentes situações. Aprender não envolve somente aspectos cognitivos. E no contexto do medo, trabalhando à distância, a observação do desenvolvimento emocional dos estudantes ficou muito mais difícil. Os casos nos quais as professoras conseguiram ter alguma resposta significativa em termos de acompanhamento e percepção do desenvolvimento emocional foram aqueles cujas famílias estabeleceram laços com a professora. Cabe destacar que isso também pode ser um fator de sobrecarga, pois nem todos os docentes se sentem confortáveis para ter essa aproximação (lembrando que estavam atendendo de suas casas, com seus equipamentos de informática e tendo que cuidar de seus filhos também).

Ainda sobre o aspecto emocional, pelo menos até a metade de 2020, cabe destacar a escola da zona rural, cujos estudantes aparentemente apresentavam sinais daquela ansiedade comum às crianças em fase de alfabetização. Aquela vontade de conhecer mais, de aprender a ler de uma vez. A rotina, para quem vive no campo, até aquele momento, não tinha sido tão afetada quanto à dos residentes no meio urbano.

Entre medo, desconforto e tantos outros sentimentos, aparece mais um ingrediente: a cobrança – seja por parte da gestão, dos pais e de outras fontes. Destaca-se, entre todas as professoras entrevistadas a autocobrança. Talvez no contexto do Brasil dos últimos anos, em que os educadores foram tão criticados e desvalorizados enquanto profissão base de todas, parece que se instalou o medo de nunca ser suficientemente bom.

As professoras relatam sobre a angústia de não conseguir fazer o trabalho com o primor que gostariam, o medo de não atingirem seus objetivos de ensino e do quanto se cobram para fazerem cada vez melhor seus trabalhos. Veja bem, estamos falando aqui de seres humanos que têm família, lares, sonhos etc. É um peso muito grande para carregar. Questionadas se já passaram por algum tipo de treinamento em inteligência emocional, informam que não. Pouco conhecem sobre o assunto e têm interesse em aprender sobre isso.

Ei, coordenadores de instituições de nível superior na área de Educação! Está caindo de maduro esse nicho de mercado. Atenção aí!

Questionadas sobre os aprendizados que essa experiência trouxe, as professoras destacaram a importância da parceria entre escola e famílias, o contato visual com os estudantes e como a proximidade, o abraço e o sentimento fazem falta nesse processo.

Destacaram também a importância de o docente buscar novos conhecimentos, reciclar-se, conhecer novas tecnologias e, principalmente, voltar à condição de estudante. O ano de 2020 apresentou, entre outros fenômenos, um novo olhar sobre a educação. Estudantes ensinando outros estudantes: professores – detentores do conhecimento formal – alfabetizando funcionalmente crianças e estas ensinando aos seus professores termos da alfabetização digital que alguns desconheciam. Professores tiveram que voltar para as salas de aula (desta vez online) e aprender a usar as mídias digitais. Foi uma troca de saberes.

Quando o ano letivo se encerrou, as entrevistas foram retomadas. Desta vez para que as professoras pudessem expressar suas reflexões a respeito do trabalho que realizaram. Algumas ficaram impressionadas positivamente com os resultados online, pois este era um campo de atuação até então pouco explorado. Cabe considerar que esses resultados se referem aos estudantes cujas famílias têm condições de proporcionar os recursos tecnológicos.

Também foi salientada a questão da integridade. Ficou perceptível, em alguns casos, que as atividades entregues pelos estudantes foram executadas por alguém já alfabetizado. Onde estava a criança naquele momento? Por que não permitir que ela construa sua aprendizagem a partir das próprias tentativas, erros e acertos? Como repensar os métodos e recursos didáticos sem antes considerar que há uma base de caráter que também precisa, em larga escala, ser questionada? Até quando assuntos como empatia e inteligência emocional ficarão apenas a critério dos professores e não nos currículos formais?

Ainda sobre as famílias, a impressão que se tinha na metade do ano letivo de 2020 sobre o desempenho dos estudantes – e que já era senso comum entre os professores entes da pandemia – ficou evidente no encerramento do ano: crianças cujas famílias participaram de forma ativa e colaborativa com as professoras tiveram resultados muito superiores das demais. E não se trata aqui de diminuir a importância docente. O que ficou evidente foi que as crianças cujos valores familiares abrangem a importância da educação e o respeito aos professores estavam sob semelhante estímulo tanto no momento de interação com suas professoras, quanto no restante. Não havia uma dualidade de valores.

Agora temos novos desafios pela frente. Tudo o que aconteceu em 2020 serviu sobretudo para refletir os papéis de cada parte na relação ensino-aprendizagem. Pais, professores e estudantes. Para as crianças que estão iniciando o caminho das letras, este não é o “novo normal”. Este é o normal delas. Não houve um modelo de educação tão diferente disso antes. Para os pais que não atuam na área da Educação, e que tinham como referência seu tempo de estudantes, tudo ficou muito estranho, pois impactou drasticamente não somente suas rotinas, mas também suas expectativas. Para os professores, toda a sua formação e suas práticas precisaram ser revistas. Como eu costumo dizer: eu jamais conseguirei voltar para uma sala dando a mesma aula de um ano e meio atrás.

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