Círculo social

Licenciatura Plena e Bacharelado em Ciências Sociais (Faculdade de Ciências e Letras UNESP, 2015)
Mestrado em Ciências Sociais (Faculdade de Ciências e Letras UNESP, 2017)

Círculo social é um conceito usado sem grandes critérios por diferentes áreas do conhecimento e do senso comum. A ideia central, na sociologia, é que um círculo social implica um grupo de indivíduos que possuem alguma ligação entre si devido a alguma característica, seja linearidade, gostos, ambientes de trabalho, estudo, políticos, culturais etc. O círculo social não implica necessariamente relações internas de poder, apesar dessas serem presentes em diferentes situações sociais. Os círculos sociais se relacionam com os ambientes sociais e possuem suas normas e condutas, suas formas de criação de identidade, de coesão e coerção social. Não há uma regra quanto ao tamanho do círculo social nem quanto a sua dinâmica. O que se percebe, com o senso comum, autoajuda e outras teorias, ao se falar de círculo social, ele se refere aos contatos do indivíduo pessoalmente, partindo então de um ponto de vista individual para o coletivo. Na sociologia, essa visão se modifica com o método de pesquisa empregado, podendo ser observadas as relações a nível individual ou coletivo.

Ilustração: phipatbig / Shutterstock.com

O círculo social é um grupo de relações sociais formada por pessoas. E é responsável por contribuir para a socialização dos indivíduos. A socialização passa pelo compartilhamento de identidades, normas e valores que implicam relações entre as pessoas de determinado círculo. E isto é praticamente independente da idade dos indivíduos do grupo, com exceção de situações em que os integrantes são muito jovens e ainda estão absorvendo as normas do grupo. Os círculos sociais, porém, são desenvolvidos tanto pelo social em que se insere como pelo próprio individuo, pensando nas amizades disponíveis e que serão mantidas em uma geração.

De fato, o preço dos presentes comprados marca geralmente como um sociograma o grau de amizade que liga as crianças entre elas ou a proximidade das famílias. Pois a autonomia da criança na constituição de sua rede social está em jogo, e a compra do presente representa a primeira resposta a um convite oriundo de um círculo social sobre o qual, não raro, os pais têm apenas um domínio limitado. Estes, entretanto, costumam favorecer essa sociabilidade infantil por dois lados: ao consentirem com essa ampliação do círculo social, e ao aceitarem, ou pelo menos negociarem, as normas culturais do presente. (SIROTA, 2005, p. 539)

Para Sirota, a construção do círculo social perpassa a adesão de regras e a construção de práticas sociais consideradas aceitáveis e esperadas, como a ação de dar presentes. Essas práticas criam laços sociais entre indivíduos dos grupos. Participar das normas envolve marcar seu próprio lugar no círculo social.

Assim, tanto os presentes de aniversário recebidos no primeiro como os trocados no segundo, infinitamente mais frequentes, marcam ao mesmo tempo a constituição do círculo social e a construção de regras de civilidade: em outras palavras, a aprendizagem da implementação do vínculo social por meio da dádiva. (SIROTA, 2005, p. 537).

As ideias de coesão e coerção social também permeiam o círculo social, pois mesmo que este seja diferente de outros grupos sociais, ainda se constrói baseado em normas e valores que os indivíduos constroem mutuamente. Não necessariamente esses valores são sempre expressados, como Bourdieu discute em seu conceito de doxa; muitas vezes são valores tácitos. Ainda assim, a coesão do grupo se faz em relação com o cumprimento de ações esperadas e coma coerção com o não cumprimento das normas.

“Coesão é o grau em que indivíduos que participam de um sistema social se identificam com ele e se sentem obrigados a apoiá-lo, especialmente no que diz respeito a normas, valores, crenças e estrutura. [...] Durkheim afirmava que o grau de coesão depende da maneira como os sistemas sociais são organizados. [...] Versões mais recentes do enfoque da coesão social de Durkheim, especialmente a que foi desenvolvida por Talcott Parsons, baseiam-se na ideia de que as sociedades modernas, complexas, são mantidas coesas por um consenso geral sobre valores.” (JOHNSON, 1997, p. 41)

Ao mesmo tempo em que as normas são acordos sociais, não se pode olvidar os processos que se desenvolvem dentro dos grupos sociais, e por extensão de círculos sociais específicos, quanto ao habitus. Este conceito auxilia a compreender porque as pessoas se portam diferente dentro de cada grupo social que participam, interagindo e negociando com as regras internas de forma ativa. A ideia de norma social traz uma carga coercitiva externa que é internalizada sem agencia, enquanto o habitus permite essa negociação que percebe-se nos círculos sociais para a convivência da subjetividade multiplamente formada atualmente e as diferentes normas de conduta.

"Habitus é então concebido como um sistema de esquemas individuais, socialmente constituído de disposições estruturadas (no social) e estruturantes (nas mentes), adquirido nas e pelas experiências práticas (em condições sociais específicas de existência), constantemente orientado para funções e ações do agir cotidiano." (SETTON, 2006, p. 63)

Assim, entende-se por círculo social as relações sociais que serão definidas para os indivíduos a partir dos ambientes que os mesmos frequentam, pensando na disponibilidade, e também em suas afeições e necessidades sociais de relacionamentos. O circulo não precisa ter uma estrutura de poder, mesmo que muitas vezes possua. E ele possui normas de conduta e valores próprios que criam processos de identidade, coesão e coerção social.

REFERENCIAS:

JOHNSON, Allain G. Dicionário de sociologia: Guia prático da linguagem sociológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

SIROTA, Régine. Primeiro os amigos: os aniversários da infância, dar e receber. Educ. Soc., Campinas , v. 26, n. 91, p. 535-562, Aug. 2005 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302005000200012&lng=en&nrm=iso>.

SETTON, Maria da Graça Jacinto. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n20/n20a05

Arquivado em: Sociologia