Pobreza absoluta

Mestre em Sociologia (UnB, 2014)
Graduado em Ciência Política (UnB, 2010)

Enquanto a desigualdade social é um conceito relativo (ou seja, se mede comparando o abismo econômico entre os mais ricos e os mais pobres), a pobreza absoluta, como o próprio nome diz, é um conceito absoluto (ou seja, se refere ao grau de pobreza de determinado indivíduo ou população).

É por isso que uma pessoa considerada pobre num país europeu pode possuir uma renda maior e melhor qualidade de vida que um indivíduo que ocupa a classe média de um país latino-americano, por exemplo. É por isso também que apesar de a pobreza absoluta ser uma característica de países subdesenvolvidos, ela coexiste com a riqueza em todas as regiões do globo, como nas periferias pobres das metrópoles dos países ricos.

Observe os seguintes dados: as oito pessoas mais ricas do mundo detêm o mesmo patrimônio que a soma de todas as riquezas da metade mais pobre da população mundial – esse é um dado sobre desigualdade social. Olhando para essa população mais pobre, constatou-se que mais de 700 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 1,90 por dia – esse é um dado sobre pobreza absoluta.

Desigualdade social e pobreza absoluta no Brasil

Assim, um país desigual não é necessariamente pobre. O Brasil se encontra tanto na lista dos 10 países com maior PIB do mundo, quanto na lista dos 10 países mais desiguais do mundo. Isso porque a concentração das riquezas no Brasil é enorme: os 5% mais ricos da população brasileira detêm uma riqueza equivalente a toda a riqueza dos outros 95%. Em outras palavras, tem muita gente vivendo em condições de pobreza absoluta, no mesmo país que um pequeno grupo de bilionários.

Devido aos programas sociais do governo federal, especialmente o Bolsa Família, nos quinze primeiros anos deste século, mais de 28 milhões de pessoas o Brasil subiram acima da linha da pobreza absoluta1; ao mesmo tempo, porém, que a grande concentração de renda no topo da pirâmide social se manteve estável.

Desigualdade social ou pobreza absoluta?

As ferramentas estatísticas de medição vão variar dependendo do objetivo do analista em olhar para a pobreza absoluta ou para a desigualdade social. Por exemplo, o principal índice usado para medir a desigualdade social é o coeficiente de Gini. Este coeficiente não nos diz qual país é mais rico ou mais pobre, mas sim em qual a renda está mais concentrada ou melhor distribuída.

Não há medida melhor ou pior, certa ou errada, mas sim pontos de vista diferentes sobre o mesmo problema. A escolha por certas ferramentas de análise terá consequências na formulação das políticas públicas resultantes. Por exemplo, políticas de redistribuição de renda estão mais ligadas a uma preocupação com a igualdade social.

Alguns grupos debatem se o foco do problema social estaria na desigualdade (que mesmo na ausência de pobreza extrema poderia desencadear sérios problemas sociais) ou estaria na pobreza absoluta (sendo que certo grau de desigualdade social seria aceitável, natural e até mesmo desejável).

No entanto, esta é uma falsa oposição já que a preocupação com a desigualdade social não é oposta e excludente à preocupação com a pobreza absoluta: pelo contrário, tendem a andar juntas tanto no pensamento político quanto na elaboração de políticas públicas, já que o combate à pobreza em geral tem um grande impacto na desigualdade social, e vice-versa.

Bibliografia:

OXFAM BRASIL. A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras. Relatório publicado em 25 de setembro de 2017.

1 De acordo com relatório do BANCO MUNDIAL de 2017: “Salvaguardas Contra a Reversão dos Ganhos Sociais Durante a Crise Econômica no Brasil”.

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