Cisma do Oriente

Pós-doutorado em História da Cultura (Unicamp, 2011)
Doutor em Ciências da Religião (Umesp, 2001)
Mestre em Teologia e História (Umesp, 1996)
Licenciado em Filosofia (Unicamp, 1992)
Bacharel em Teologia (Mackenzie, 1985)

Cisma é divisão ou ruptura e o “Cisma do Oriente” foi o rompimento que ocorreu em 1054 d.C., entre as Igrejas Católicas do Oriente e a do Ocidente. Essa estrutura era típica do império que se subdividira em dois, em 286, e ainda quando se decretou que a capital imperial seria Roma, as duas sedes continuaram existindo. De fato, as diferenças entre as igrejas causaram essa divisão própria Império que era Ocidental e Oriental. Com as invasões bárbaras, o Império do Ocidente caiu, em 476, e o Império do Oriente permaneceu até 1453 e ficou conhecido como Império Bizantino.

As duas Igrejas tinham sedes nesses lugares diferentes do Império: a sede (ou sé) da igreja ocidental em Roma e a da oriental em Constantinopla, mas eram uma só igreja cristã. O plano religioso de ambas acarretou aos poucos o distanciamento doutrinário entre elas. O Papa era a autoridade máxima da igreja, no continente europeu, e havia duas outras autoridades, chamadas de Patriarcas, uma sede ficava em Alexandria (Egito) e outra em Constantinopla (Turquia). Quando Alexandria foi anexada pelo Egito ao Império Muçulmano, deixou de ser importante, restando somente Constantinopla, cidade que antes se chamava Bizâncio e que depois veio a ser chamada Istambul.

Ocorreram desavenças, desigualdades políticas e culturais entre as igrejas de Roma e de Constantinopla. Entre 456 e 867 discordaram quanto à inclusão feita no Credo Apostólico (filioque), por questões litúrgicas e disciplinares, havendo um distanciamento constante entre as duas vertentes católicas e disputas pelo poder econômico-político nas regiões mediterrâneas. Os ocidentais acusaram os orientais de heresias, criticando os monofisistas por acreditarem que Jesus tinha existência unicamente divina (negando sua humanidade) e negarem a doutrina da Trindade (século 5). Também condenaram os iconoclastas que se opunham à adoração às imagens e as destruíam.

A igreja oriental assimilou características religiosas asiáticas (espiritualistas) que a ajudaram a manter o Império Bizantino, distanciando-se de Roma, e carregou a tradição e o ritual grego. A ocidental sofreu a influência de povos germânicos. A crise de autoridade aumentou e a Igreja de Constantinopla deixou de aceitar a autoridade de Roma, em 867. Os Papas apresentaram exigências que pioraram suas diferenças, principalmente quando Leão IX polemizou, entre 1048 e 1054, e os ocidentais se opuseram ao sistema bizantino, segundo o qual a igreja oriental se submetia ao chefe secular – sistema chamado cesaropapismo: o Imperador era superior e eleito de Deus para governar a Igreja também, administrar seus conflitos e manter a unidade do Império e da Igreja.

Em 1043, o Patriarca Miguel Cerulário assumiu a Igreja Bizantina (Oriente) e desenvolveu campanhas contra a Igreja Latina (Ocidente), que mandou o Cardeal Humberto até Constantinopla para solucionar a questão teológica que as diferenciava. O Cardeal resolveu excomungar o Patriarca do Oriente e toda a Igreja oriental reagiu e excomungou o Papa Leão IX, do Ocidente. Esta ruptura ou dissensão ficou chamada como o Cisma do Oriente, ou o Grande Cisma, que originou a Igreja Ortodoxa ou Igreja Católica do Oriente, separando-se da igreja Católica do Ocidente, a romana.

Mesmo com tentativas de reunificação das duas igrejas católicas, nos Concílios Ecumênicos de 1274 (Lion) e 1439 (Florença), estiveram unidas apenas por breves períodos. Com as divisões e discussões teológicas, os turcos otomanos se aproveitaram para invadir Constantinopla e decretar a queda do Império Romano do Oriente, em 1453. Essa discussão inócua ficou apelidada de “questões bizantinas”, pois enquanto discutiam até mesmo o sexo dos anjos, a cidade caia.

Em 1965, o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I tentaram aproximar as duas igrejas católicas e as questões das excomunhões foram tiradas em 1966. Até hoje os católicos ortodoxos seguem sacramentos típicos dos católicos ocidentais, mas não acreditam na infalibilidade papal nem no purgatório. Continua o Cisma e as duas igrejas católicas seguem cindidas ou separadas.

Referência:

CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.

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