Poética de Mário de Andrade

A São Paulo de Mário de Andrade é uma cidade ambígua e instável, que ora é  inspiração e comoção e ora é  uma “boca de mil dentes” que engole todas as pessoas ao seu redor. Nos seus poemas, a urbe e suas características são mencionadas com frequência. A figura do arlequim é associada à capital por ser  um símbolo de instabilidade e inquietude, pois uma hora está triste e, na outra, feliz. Os habitantes da cidade estão sempre na pressa do cotidiano e do trabalho, andam em ritmo de “trem de ferro”, como se fossem uma locomotiva que não olha para trás até chegar ao seu objetivo, passando um por cima do outro em busca do topo na grande escalada social. Um exemplo é o poema "Inspiração", feito de contrastes, afirmando a visão arlequinal de Mário de Andrade em relação a São Paulo.

O poema “Escalada” mostra como os paulistanos estão ocupados em busca de uma vida melhor, que acaba deixando o lirismo para trás. Em “Rua São Bento”, referencia a três ruas do centro de São Paulo que eram um importante foco da economia e da vida social paulistana. Essas ruas (do banco, do comércio e da moda) formavam um triângulo, por isso o poema começa com “triângulo”, em analogia à posição geográfica das ruas. As arestas desse triângulo irão esmagar, como se fossem uma prensa, o lirismo e os valores humanos. A rua dos comércios é comparada com as iaras, assim como as sereias mitológicas. O comércio seduz e leva as pessoas ao engano, à perdição e à morte, que, no caso do poema, seria a morte dos valores humanos pela tentação dos valores materiais.

Nesse poema ainda aparece o forte xenofobismo da época, ao dizer que a cidade se transformou numa Califórnia em que os estrangeiros vieram em busca de riqueza, desbancando as famílias tradicionais. Isso seria um equívoco do poeta, pois são as famílias tradicionais que “mandam” na economia, sem sofrer nenhum abalo em sua situação financeira pelo fato de imigrantes aparecerem em São Paulo.

Em vários poemas de Mario de Andrade pode-se encontrar uma critica à burguesia paulista, “a digestão bem-feita de São Paulo!” como está escrito nos versos de “Ode ao burguês”. O burguês é visto, no poema, como aquele que acumulou riquezas pouco a pouco e tenta imitar os modos da aristocracia, podendo ser definido com a expressão popular “come mortadela e arrota caviar”. É a aristocracia cautelosa que, para se mostrar como tal, compra títulos de nobreza: “Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!”.

Fontes:
ANDRADE, Mário de. De Paulicéia Desvairada a Café (Poesias Completas). São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mário_de_Andrade
http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/jogo/pauliceia.asp

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