Crise econômica global de 2008

A Crise econômica global de 2008, ou Crise do Subprime, foi a maior do sistema financeiro pós-moderno. Especificamente do Capitalismo de Estado. Resultou de intervenções governamentais na economia que se prolongaram por anos, impulsionando a sustentação de uma bolha imobiliária que só se tornou mundialmente reconhecida desde agosto de 2007.

A sustentação da bolha imobiliária

Foto: Norman Chan / Shutterstock.com

Após o estoura da bolha econômica das empresas de tecnologia nos anos 2000, o Banco Central Estadunidense, Federal Reserve System (FED), injetou mais dinheiro no sistema bancário objetivando reduzir as taxas de juros cobradas pelos bancos, para salvar empresas à beira da falência, manter o desemprego em baixa e evitar recessão. A medida intensificou-se após os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001.

A taxa básica de juros caiu de 6,5% para 1%, ficando assim até 2004. Isso expandiu o crédito dos bancos, aumentando as ofertas de empréstimos. De 2000 para 2008, o crédito aumentou 100%, de US$ 3,5 para US$ 7 trilhões. Dos US$ 3,5 trilhões a mais na economia americana, US$ 2 trilhões foram parar no setor imobiliário, sustentando uma bolha econômica.

O aumento dos preços dos imóveis foi de aproximadamente 10% ao ano. O setor imobiliário passou a ser fértil para a especulação. Tornou-se comum que uma pessoa fizesse um empréstimo para comprar uma casa e cerca de um ano depois a revendesse por um valor maior, entregando a hipoteca ao novo comprador.

Outras pessoas utilizavam suas casas como caixa eletrônico: para conseguir empréstimos e comprar bens, usavam a casa como garantia quando seu preço valorizava. A legislação de políticas afirmativas de inclusão social obrigava os credores a emprestarem dinheiro para pessoas de rendas modestas, que raramente conseguiriam empréstimo. Os empréstimos para pessoas que tinham poucas condições de pagar chamam-se “empréstimos subprime”. As ações afirmativas para empréstimos já existiam antes da primeira década dos anos 2000, mas foram intensificadas na bolha imobiliária do período.

No século XX, o Congresso americano criou duas empresas nominalmente privadas, que tinham os desejos do governo federal como sua prioridade: A Federal National Mortgage Association, mais conhecida como Fannie Mae; e a Federal Home Loan Mortgage Corporation, conhecida como Freddie Mac. As atividades dessas empresas foram expandidas no período da bolha; e elas atuavam no mercado imobiliário não fazendo empréstimos, mas comprando-os dos bancos garantindo liquidez ao mercado hipotecário.

Quando um americano se dirigia ao banco comercial em busca de empréstimo para comprar um imóvel, o banco criava dinheiro eletrônico (através do sistema de reservas fracionárias), acrescentando dígitos à conta do tomador do empréstimo. Fazendo um empréstimo, o banco gera um ativo e um passivo: o ativo é o valor do empréstimo e o passivo é o dinheiro do empréstimo concedido.

A cada empréstimo, há um crescimento do valor do ativo do banco, assim como do passivo. O FED estabelece um limite para o crescimento dos ativos: é preciso manter uma proporção máxima entre o valor do patrimônio líquido do banco e o do ativo. O banco não pode conceder empréstimos desenfreadamente, para não atingir esse limite determinado rapidamente. Graças às ações do FED, os bancos tinham mais dinheiro para emprestar, tendo como empecilho essa regra de proporção.

Fannie Mae e Freddie Mac compravam dos bancos comerciais esses empréstimos concedidos para os compradores de imóveis (títulos hipotecários), para que os bancos pudessem emprestar mais sem estourarem o limite permitido, pois cada título hipotecário vendido saía do livro contábil; e ele recebia uma quantia maior que a emprestada, obtendo lucros.

Os tomadores de empréstimos agora deviam suas hipotecas para Fannie Mae e Freddie Mac. Se eles dessem calote, elas teriam prejuízos: os títulos hipotecários seriam remarcados para um valor zero e o patrimônio líquido de ambas seria severamente afetado. Elas também venderam suas carteiras de empréstimos para outros investidores. Esses empréstimos imobiliários revendidos ficaram conhecidos como “títulos lastreados em hipotecas (mortgage-backed securities)”.

Porém, geralmente, elas mantinham esses títulos em suas carteiras: em setembro de 2008 detinham metade das hipotecas americanas e quase 75% das hipotecas recém-concedidas. Além disso, Fannie e Freddie garantiam as hipotecas que vendiam no mercado secundário por usufruírem de uma linha especial de crédito junto ao Tesouro Americano. Teoricamente, quem comprasse um título lastreado em hipoteca de Fannie ou Freddie estaria segurado pelo Governo Americano.

Quando Fannie Mae e Freddie Mac empacotavam seus ativos para revender aos grandes conglomerados financeiros e bancos de investidores de todo o mundo (processo conhecido como securitização), agências de classificação de risco como a Moody's, Fitch e Standard & Poor's corroboravam impressão de segurança.

O problema da securitização é que os investidores compravam ativos bons e ruins misturados num só pacote, o que se conhece por Collaterized Debt Obligation (CDO). Traduzindo: Obrigação de Dívida Colateralizada. Eles compravam esses pacotes porque as agências de classificação de risco davam classificação máxima (AAA) para eles, apesar de que calotes nos ativos contaminados traria sérias consequências econômicas às instituições que os adquirissem.

As agências eram extremamente reguladas pela Securities and Exchange Commission (SEC), agência federal estadunidense responsável pela aplicação das leis de títulos federais e a regulação do setor de valores imobiliários, a qual mantinha o seu cartel na área. Para o economista Leandro Roque, as agências de classificação de risco não queriam criar turbulência política indispondo-se com o governo rebaixando publicamente a qualidade dos títulos hipotecários, pois a medida impopular poderia arriscar seu cartel e prejudicar seus lucros.

O estouro da bolha

Em meados de 2004, quando a economia americana parecia estar recuperada da recessão de 2001, o FED reduziu as injeções de dinheiro no sistema bancário, elevando as taxas de juros. A taxa básica de juros foi de 1% para 5,25%. No setor imobiliário, o impacto foi um crescimento de 71% nos juros das hipotecas com taxas ajustáveis, que saíram da mínima de 3,5% no começo de 2004 para 6% em meados de 2006; enquanto as hipotecas convencionais sofreram aumento de quase 27%, indo de 5,5% para 7%. O resultado foi a diminuição da demanda por imóveis e crescimento do número de calotes.

Os imóveis começaram a desvalorizar em meados de 2006, porque a oferta alta estava em desarmonia com a demanda que só caía. Perceber que os preços não iriam mais subir espantou os especuladores, que pararam de pagar suas hipotecas, abandonando os imóveis sem nada perder, já que não precisaram dar entrada para adquiri-los. Outros deixaram de pagar porque não conseguiam arcar com os novos juros, tornando-se inadimplentes. De 2005 até o final de 2008, os calotes cresceram de US$ 20 bilhões para US$ 170 bilhões, aumento de 750% em apenas 4 anos.

Os calotes deram sérios prejuízos aos bancos de investimento que tinham comprado os títulos lastreados em hipotecas: o valor dos ativos caiu para zero, tendo crescimento em passivos e cada vez menos lucros, com brutal redução de patrimônio líquido. Eles pararam de conceder novos empréstimos, inclusive no mercado interbancário.

Em nove de agosto de 2007, o banco francês BNP Paribas fez o anúncio da suspensão dos saques de dois volumosos fundos de investimentos lastreados em hipotecas, afetando o banco britânico Northern Rock, que dependia destes para sua liquidez. O Northern Rock tomava empréstimos no mercado financeiro internacional para conceder hipotecas e depois revendê-las para outros bancos de investimento, prática comum entre os grandes bancos da época.

Quando a demanda por títulos lastreados em hipotecas caiu, as receitas do Northen Rock desabaram, ele se tornou insolvente, e pediu um empréstimo de 3 bilhões de libras para o Banco Central da Inglaterra. Um informante de dentro do Banco da Inglaterra contou sobre a operação para a BBC no dia 13 de setembro, e a notícia se espalhou tão rápido que na manhã seguinte houve a maior corrida bancária desde 1930, com inúmeros correntistas sacando seu dinheiro do Northern Rock. O Governo Britânico se comprometeu a garantir todos os depósitos do banco, e em 17 de fevereiro de 2008 ele foi nacionalizado.

Em março de 2008, foi a vez do banco de investimentos Bear Stearns se tornar insolvente, e o Tesouro Americano tratou de sua aquisição pelo JP Morgan. Fannie Mae e Freddie Mac foram completamente nacionalizadas no dia sete de setembro. Uma semana depois, o FED organizou a aquisição do Merryl Linch pelo Bank of America. O Lehman Brothers anunciou sua falência em 15 de setembro.

A seguradora AIG, que emitia seguros contra calotes de hipotecas, anunciou no dia 16 que estava sem dinheiro, devido o disparo do número de calotes. Até o fim de 2008, o FED emprestou US$ 125 bilhões para a AIG, obtendo 80% da empresa. O presidente George Bush afirmou que colocaria US$ 700 bilhões dos pagadores de imposto em risco para comprar ativos tóxicos que estavam presos no sistema financeiro. Já o Congresso americano aprovou o maior resgate financeiro da história, de US$ 100 bilhões.

A crise não atingiu somente os investidores do setor imobiliário, mas toda a economia. Empresas automobilísticas entraram em situação crítica, e em novembro de 2008 seus CEOs foram à Washington pedir empréstimo alegando que sem isso haveria um holocausto de empregos. Bush concedeu milhões de dólares à General Motors e à Chrysler, do dinheiro do pacote inicialmente destinado à salvação do setor financeiro. Em dezembro daquele ano, a taxa de juros baixou novamente, para quase 0%. Em 2009, o presidente Barack Obama aprovou um pacote de estímulos de US$ 787 bilhões para incentivar a economia.

REFERÊNCIAS:

FRAUDE. Explicando a grande recessão. Produção: Amagifilms. Direção:Juan Jose Mercado. Espanha: 2012. (68min). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8J7r_czAqfM>. Acesso em 15 de fevereiro de 2019.

OVERDOSE – A próxima crise financeira. Produção: Henrik Devell. Direção: Martin Borgs. Roteiro: Johan Norberg e Martin Borgs. Música: Adam Nordén. 2010. (47min). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kIgJpB_Jqig&t=30s>. Acesso em 15 de fevereiro de 2019.

ROQUE, Leandro. Como ocorreu a crise financeira americana. Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1696>. Acesso em 15 de fevereiro de 2019.

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