Fiscais do Sarney

Graduada em História (Udesc, 2010)
Mestre em História (Udesc, 2013)
Doutora em História (USP, 2018)

José Sarney chegou à presidência do Brasil em 1985 após a morte inesperada de Tancredo Neves. Eles foram eleitos pelo Colégio Eleitoral e Sarney foi o primeiro presidente civil a tomar posse após a Ditadura Militar. Seu governo foi visto com desconfiança: o nome em quem os brasileiros depositaram esperanças democráticas fora o nome de Tancredo Neves. Sarney teve sua ascensão política e econômica durante a ditadura militar, e foi um nome importante do partido situacionista de então, a Aliança Renovadora Nacional – ARENA. Mas, com sua ascensão à presidência ele foi o condutor do executivo no processo de redemocratização. Com isso diversas mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas aconteceram.

No governo de José Sarney o brasileiro viveu cotidianamente com o fenômeno da inflação. Este fenômeno é caracterizado pelo aumento constante nos preços dos produtos e serviços e é bastante comum na história do Brasil: em diversos momentos a inflação assustou as pessoas comuns, que não viam seus rendimentos mensais aumentarem na mesma proporção que os produtos vendidos nos mercados aumentavam (nem o aluguel de suas casas, por exemplo). O cidadão brasileiro, consumidor, atuaria como vigilante dos preços do comércio. Isso aconteceu logo que foi lançado o Plano Cruzado, em 1986. O plano foi lançado logo no início do ano e foi anunciado de forma midiática. Ele veio para substituir o cruzeiro e junto com ele algumas medidas foram tomadas a fim de organizar a situação econômica do país: preços foram congelados com prazo indeterminado e o salário mínimo sofreu reajuste. Como estratégia popular de tornar o cidadão partícipe da nova política econômica o governo de José Sarney criou as figuras de fiscais do Sarney. A principal inimiga a ser fiscalizada era a inflação.

O presidente deixou aos brasileiros a tarefa cidadã de fiscalizar os preços que estavam sendo praticados no comércio, especialmente nos supermercados. O título que associava o brasileiro à tarefa de fiscalizar as práticas comerciais – os fiscais do Sarney – ganhou popularidade com as notícias de jornal. Essa fiscalização tinha um objetivo claro: conter a inflação. Por isso Sarney insistiu na aprovação do Plano Cruzado e os fiscais deveriam atuar para fazer cumprir tal plano, que, como medida principal, previa o congelamento dos preços dos produtos nas prateleiras das casas comerciais. O governo distribuiu tabelas com os preços uniformizados e ao cidadão cabia a tarefa de denunciar ao governo aqueles que não estivessem seguindo o congelamento dos preços de mercadorias. Os fiscais chegavam a denunciar os abusos por parte dos comerciantes à polícia para que tomasse as medidas cabíveis: se o caso abusivo fosse constatado estabelecimentos podiam até ser temporariamente fechados.

Em primeiro momento o projeto do governo com a ação dos fiscais do Sarney aqueceu o comércio: para uma população acostumada com a inflação constante, o congelamento dos preços gerou consumo há muito não experimentado pelos brasileiros. Foi um – curto – tempo de otimismo e consumo elevado. Mas, o custo de produção das mercadorias sendo vendidas a preço tabelado passou a ser um problema e muitos produtos começaram a acabar nas prateleiras dos supermercados e, com isso, uma nova crise se instaurou e a inflação voltou a subir. Além disso, com o aumento salarial e o congelamento do preço dos produtos muitos brasileiros exageraram no consumo: carne, leite, automóveis, viagens foram sendo cada vez mais consumidos por uma classe média em ascensão. O Plano Cruzado fracassou e não estabilizou a economia. Os fiscais do Sarney também não duraram muito nos corredores dos supermercados. Depois dele, outros planos vieram: Plano Bresser, Plano Verão são alguns dos exemplos das tentativas de organizar as contas públicas. A ditadura militar havia deixado dívidas e o milagre econômico foi mais uma construção fantasiosa do que uma melhoria real de vida para os brasileiros. Ainda na década de 1980 se sentiam os efeitos do desequilíbrio das contas públicas, e esses problemas duraram a década inteira. Somente anos mais tarde a inflação foi equilibrada: foi o Plano Real que possibilitou certa estabilidade econômica para o Brasil.

Referência:

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2007.