Antítese

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

Publicado em 13/02/2019

As palavras têm vida: são carregadas de significados, se contaminam com os sentidos de outras palavras, produzem relações e jogos entre si, conotam novos sentidos, são o nosso meio de nos expressar diante do mundo. Nesse contexto, as figuras de linguagem funcionam como mecanismos linguísticos que facilitam a comunicação e oferecem aos usuários da língua procedimentos estilísticos para os mais diversos tipos de produção textual.

A antítese é um desses procedimentos linguísticos que possibilita uma dinâmica ao texto, uma liberdade na produção de sentido ao estabelecer relações entre palavras que designam significações opostas. Essa figura de pensamento resulta de um processo que surge anterior à fala ou à escrita. Configurando-se como é um processo simbólico realizado através da escolha de palavras com sentidos contrários para explicar uma realidade ou situação ambígua ou contraditória, por exemplo. O termo “antítese” tem origem no grego “antithesis” e seu significado denota “resistência” ou “oposição”, “anthi” significa contra e “theses” afirmação.

A natureza, a instabilidade das coisas, a passagem do tempo, são temas recorrentes na literatura e que se apresentam resultantes de realidades repletas de dualidades e fatos que se opõem. Por exemplo, a relação entre o dia e a noite, o claro e o escuro, o calor e o frio, o sol e a lua, etc. Em geral, a vida apresenta uma infinidade de situações antitéticas. O homem do período barroco vivenciou aprofundadamente as sensações de dualidade. Sobre as sensações do homem barroco e as relações ambíguas, Gregório de Matos escreveu uma poesia lírica que exemplifica muito bem a antítese. Para entender como funciona essa figura de pensamento leia a poesia lírica a seguir:

À instabilidade das coisas do mundo

Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto, de pena assim se fia?

Mas no sol, e na luz, falta a firmeza;
Na formosura, não se dê constância:
E na alegria, sinta-se tristeza.

Comece o mundo enfim pela ignorância,
Pois tem qualquer dos bens por natureza,
A firmeza somente na inconstância.

Nota-se que a temática da brevidade da vida é a centralidade deste poema. Através dos recursos das figuras de linguagem é possível traduzir em palavras, rimas e combinações antitéticas as contradições que o poeta sente. Há uma sucessão de antíteses, uma das figuras de pensamento mais comuns na estética barroca, em que se contrapõem palavras ou frases de sentidos opostos. Observe alguns exemplos surgidos no texto em análise: dia e noite, luz e escuridão, alegria e tristeza, firmeza e inconstância, nascer e morrer.

A natureza se apresenta de maneira instável para o poeta, o que se concretiza na linguagem através da antítese. A saber; nos versos “na formosura, não se dê constância: e na alegria, sinta-se tristeza”, a beleza da vida e o frescor da juventude logo se perdem dando lugar às marcas do tempo. Ou seja, a antítese concentra-se na ideia de que existe a beleza, porém ela é efêmera. Constitui-se, dessa forma, a antítese; um jogo de palavras com sentidos opostos e que não se excluem entre si, estabelecendo um contraste que pode acontecer também entre frases e orações.

A literatura faz uso recorrente das figuras de linguagem, por isso encontra-se antítese em diversos textos dos mais diferentes autores e épocas. Trata-se de um recurso que em sua interpretação produz imagens. Para alguns críticos, tais como Octavio Paz, a poesia é toda elaborada através de imagens que são formuladas pelos jogos de palavras contrárias, e em algumas instâncias se anulam para dar origem a uma terceira realidade. No caso das imagens pela antítese, o que se cria é uma interpretação dada pelos opostos, como pluma e pedra, por exemplo. Quando se juntam em um mesmo verso dão origem a uma imagem de significados opostos: leve e pesado. Vale ressaltar que as figuras de oposição, conjunto da qual a antítese faz parte, representam sobremaneira a condição humana marcada por contradições. Vejamos mais um exemplo de poesia em que aparece antítese.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão,
Rodar também e amar?

Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

(Amar, de Carlos Drummond de Andrade)

Perceba como a antítese se não somente no nível da oposição entre termos de significados contrários, mas também na oposição de ideias, tais como “amar o inóspito, amar o áspero”.

A antítese é também um recurso muito usado no cotidiano. Algumas construções se tornaram comuns quanto ditos populares, por exemplo:

Ficou entre a vida e a morte.
Amor e ódio são faces da mesma moeda.

Alguns ditados populares que apresentam antíteses:

“Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura.”

“Quem ama o feio, bonito lhe parece.”

Bibliografia:

CABRAL, Leonor Scliar. Introdução à Linguística. Porto Alegre, Globo, 1976.

CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 15. Ed., 4° reimpressão – São Paulo: Ática, 2002.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

Arquivado em: Linguística, Português