Sagarana

A obra Sagarana é a primeira publicação de um dos maiores escritores brasileiros, o também médico e diplomata João Guimarães Rosa. Composto de nove contos, nos quais já se destacam as características que se tornariam marcas inconfundíveis deste mestre da literatura universal, a visão inovadora sobre a morte, os animais retratados como se fossem seres humanos, as profundas meditações sobre a alma humana e a existência do Homem, este livro foi lançado em 1946.

A princípio, em 1938, Rosa inscreveu a obra então intitulada “Contos” no Concurso Literário Humberto de Campos, na época promovido pela editora e livraria José Olympio, com o nome artístico de Viator. Embora fosse bastante elogiada pelos críticos, ela foi desbancada pelo livro Maria Perigosa, de Luís Jardim, angariando o segundo lugar.

Ao invés de ser excluída por Guimarães, ela foi algum tempo depois revista e editada, até ser finalmente aceita por um editor. Esta obra é certamente original, a partir do próprio título, que já indica a tendência do autor a criar neologismos – Saga, de procedência alemã, tem o sentido de ‘lenda’, enquanto Rana, de ascendência indígena, significa ‘maneira de, espécie de’, formando assim a idéia de ‘espécies de lenda’.

Apesar de Rosa representar em sua obra a realidade rural, principalmente a do contexto mineiro, não se pode jamais reduzir seu estilo ao repisado Regionalismo, pois ele subverte totalmente a linguagem literária, e elege de tal forma os temas abordados em suas narrativas, que as converte imediatamente em realidades universais. Seu estilo o leva a ser aclamado imediatamente pela crítica, e seus livros posteriores só amplificam e confirmam sua genialidade.

Cinco dos contos de Sagarana traduzem para a vida do sertanejo remotos mitos e trajetórias épicas que elevam o status destas histórias a um patamar que transcende o tempo e o espaço, eternizando-as no rol dos clássicos literários. São eles O Burrinho Pedrês, Duelo, São Marcos, A Hora e a Vez de Augusto Matraga e Corpo Fechado. No primeiro está presente também outra característica marcante do autor, o tom feérico que perpassa muitas de suas narrativas, introduzindo no universo do sertão a esfera do maravilhoso, muitas vezes instaurada pelo famoso início dos contos de fada, ‘Era uma vez’.

Há também as histórias singelas nas quais se destacam o amor e os personagens solitários, como Sarapalha e Minha Gente. Já as reflexões de cunho político e social estão presentes, por exemplo, em Conversa de Bois. Há uma forte tendência, nesta obra, de criar personagens do mundo animal com atitudes e críticas inerentes ao reino humano, nas quais muitas vezes os bichos realizam feitos heróicos ou colocam em xeque a própria ação do Homem, como em A Volta do Marido Pródigo.

Em Sagarana, Rosa já ensaia sua perícia em realizar um mix entre ficção e realidade, fantasia e imaginação, procurando alcançar sua verdade através da intrincada teia entretecida por logos e mythos, evocando o imaginário popular, as lendas, o folclore, a riqueza inesgotável da memória humana. Neste sentido, a mensagem oculta nas entrelinhas está inextricavelmente ligada à forma, tecida pela recorrência constante aos neologismos e às figuras de linguagem, que criam e recriam o poder mágico das palavras geradas pelo mineiro Guimarães Rosa.

Leia um resumo da obra:

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