Intoxicação de cães de gatos por veneno de rato

Mestre em Ciência Animal (UFG, 2013)
Graduada em Medicina Veterinária (UFG, 2010)

O aldicarbe (C7H14N2O2S) é um fitossanitário pertencente ao grupo químico dos carbamatos, conhecido vulgarmente como "veneno de rato" e "chumbinho", devido ao aspecto esférico de seus grânulos e a coloração semelhante ao chumbo. Esse composto tinha autorização para uso exclusivo na agricultura, mas em 2012 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou o cancelamento do seu registro e ele precisou ser retirado do mercado brasileiro, ou seja sua autorização de uso no país foi proibida.

Essa ação foi necessária em razão do crescente número de intoxicações humana e animal, de caráter acidental ou criminoso por absorção de aldicarbe. Seu uso inadequado também era muito observado como rodenticida, entretanto essa utilização irracional culminava na reprodução das fêmeas da colônia, para repor os animais exterminados, provocando o efeito bumerangue.

A absorção do aldicarbe pelo organismo pode ocorrer por meio das vias respiratória, oral e cutânea. A literatura explica que a dose oral necessária, para provocar a morte de 50% dos ratos, de um lote submetido à intoxicação experimental pelo composto é de 0,49 a 1,41mg. kg−1, o que demonstra que a toxicidade por essa via é extremamente alta. Ao atingir o estômago, a absorção é rápida e integral, provocando as manifestações clínicas em poucos minutos.

O mecanismo de toxicidade dos carbamatos consiste na inibição da atividade da acetilcolinesterase (AChE), uma enzima responsável por catalisar a hidrólise do neurotransmissor acetilcolina (ACh), em ácido acético e colina, durante as sinapses colinérgicas. A ocorrência dessas, se dá no sistema nervoso central (SNC) e periférico (SNP) e são fundamentais para diversas funções fisiológicas do organismo.

A Ach é formada no neurônio pré-sináptico, onde fica armazenada em vesículas, até que haja um estímulo para a sua liberação na fenda sináptica. Ao ser ativada, a ACh se liga no receptor pós-sináptico e propaga a informação, porém após a transmissão da mensagem, a molécula de ACh precisa retornar à fenda sináptica e o neurônio colinérgico, à sua condição de repouso. Isso ocorre por ação da AChE, que realiza a requerida hidrólise.

Dessa forma, o aldicarbe provoca o acúmulo do neurotransmissor acetilcolina, e consequentemente, a estimulação excessiva dos receptores nicotínicos e muscarínicos. Os sinais clínicos são dose-dependente, e em casos severos pode levar à morte de forma rápida. Em geral os animais apresentam vômitos, salivação, bradicardia, miose, hiperglicemia, dispnéia, depressão respiratória, fraqueza muscular e paralisia. Ao ocorrer a hipertonicidade dos músculos respiratórios, as consequências são a parada respiratória e a morte.

Ao exame de necropsia, observa-se rins, fígado e pulmão com sinais de congestão e hemorragia, petéquias e sufusões na pleura, congestão e edema encefálico, edema pulmonar e pode-de encontrar os próprios grânulos do chumbinho, no conteúdo estomacal. Microscopicamente visualiza-se necrose e degeneração hidrópica nos órgão citados anteriormente.

Há exames laboratoriais, que podem ser utilizados para se confirmar a suspeita da intoxicação, como a avaliação da atividade das colinesterases plasmática e eritrocitária e a cromatografia em camada delgada ou gasosa, que é uma técnica qualitativa simples, rápida e economicamente viável, em que analisa-se amostras do conteúdo estomacal ou do alimento suspeito.

Em razão do caráter letal da intoxicação por carbamatos, de acordo com a quantidade de tóxico absorvida pode não ser possível a realização de exames, pois o tratamento deve ser introduzido o mais precocemente possível. Deve ser feita a lavagem gástrica do paciente, a administração de carvão ativado e a aplicação de sulfato de atropina para reverter os efeitos muscarínicos.

Para o atendimento rápido e eficaz dos animais acometidos por intoxicação é importante conhecer a sintomatologia clínica e o antídoto específico, além disso é preciso que o médico veterinário tome as medidas cabíveis em casos de intoxicação criminosa, haja vista que o comércio de aldicarb é ilegal e, de acordo com o Art. 32 da Lei de Crimes Ambientais ( Lei nº 9.605/98), maus-tratos a animais incorre em detenção e multa.

Referências:

FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Manual de controle de roedores. Brasília: Ministério da Saúde, Fundação Nacional de Saúde, p.129. 2002.

Araújo, L. A. et al. Intoxicação por aldicarbe (chumbinho) em um felino – Relato de caso . IN: Trabalho apresentado no II Simpósio de Pequenos Animais. Ciência Animal 27(2), 2017.

Xavier et al. Thin-layer chromatography for aldicarb poisoning diagnosis in dogs and cats. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. Belo Horizonte. v59(5), 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352007000500020.

BRASIL. Lei no 9.605 de 1998: Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de lei de crimes ambientais, condutas e atividade lesivas ao meio ambiente (Lei dos Crimes Ambientais). 1998.

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