Semiótica do Amor

Música traz contradições para definir o que é o verdadeiro amor.

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Monte Castelo é um diálogo intertextual entre o soneto de Luís Vaz de Camões e a passagem da bíblia: I Coríntios 13. Há o emprego de paráfrase feito pelo autor, Renato Russo, na letra da música para que a mensagem alcance tal resultado (observe abaixo).

O primeiro parágrafo contém a passagem da bíblia, já mencionada anteriormente, porém existem modificações visíveis, atente: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como metal que soa ou como sino que tine.

Portanto, o trecho da bíblia faz referência a outro elemento: CARIDADE. Sugere que se a pessoa não tiver o sentimento – a vontade da doação – logo, não importa a alarde de seus atos.

Na composição poética, principalmente na primeira estrofe, existe a manifestação do seguinte pensamento: de nada adianta um discurso bonito, com boas palavras e voz angelical, se o ato ou efeito de sentir AMOR não é verdadeiro. Sem sentimento a ação não tem vida, é algo falso e supérfluo. A importância deste parágrafo exerce tanta equivalência que acaba por se repetir no final da música. Enfim, sem amor não existe o discurso, não existe a ação (equivalente ao ato generoso), não existe nada – apenas uma representação falsa daquilo que não se tem.

Estão inseridos, no segundo quarteto, termos que procuram definir o amor como: “fogo que arde”, “ferida que dói”, etc. Cada qual, seguido de uma qualificação que contradiz o significado do termo anterior. Portanto, “sem se ver” contradiz “fogo que arde”; “não se sente” contradiz “ferida que dói”.

Os termos abstratos que definem o significado das figuras utilizadas pelo autor fornecem a essência das palavras e dos versos, note a tabela:

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Quando diz: “Tão contrário a si é o mesmo amor”, o poeta abandona a tentativa de definir o amor.

No soneto de Camões, a palavra “amor” abre e fecha a produção literária dando a ideia de que ao final das tentativas de definir o amor, chega-se à redundância “amor é amor”. Este mesmo soneto permite concluir que o sentimento amoroso só pode ser vivenciado e não explicado por categorias lógicas. Isto quer dizer que é impossível buscar uma definição de amor externamente.Quando diz: “Tão contrário a si é o mesmo amor”, o poeta abandona a tentativa de definir o amor.

O amor existe como vida, é a realização de um sentimento e não a descrição desta virtude. O sujeito encontra-se em conjunção com o ato realizado e em disjunção da virtualização do amor que faz a ação ser verdadeira.

O que é revelado pelas palavras que se opõem é que o amor é doação total, é um não esperar troca – a não ser o bem do outro. Além disso, o amor é uma contradição a ele próprio: paradoxal para quem vive porque é feito de sensações contrárias.

A linguagem em função estética, que caracteriza o texto literário, apresenta, em síntese, os seguintes traços: plurissignificação, desautomatização; conotação, relevância do plano de expressão e intangibilidade da organização lingüística. No texto literário, o modo de dizer é tão (ou mais) importante quanto o que se diz.” (FIORIN & SAVIOLI, p.353).

As sentenças figurativas, ou melhor, as palavras do texto que dão à noção de oposição ocorrem quando o “ser” é visto com “vida”: se ama e, “morte” quando não se tem amor. As palavras que se referem a esta vida são: amor, vontade, bom, entre outras. Já as que se referem à morte são: vaidade, inveja e assim por diante. A morte também é vista como um estado de dormência e a vida, em oposição, a representação de estar acordado, desperto.

O texto sugere o ato da transformação dada pela presença do sentimento. O caminho que é utilizado para que aconteça a transformação é a vivência do amor e não sua definição.

O elemento eufórico – o que é valorizado e buscado pelo texto – não é nada mais do que o amor verdadeiro. O elemento disfórico – a parte negativa – é o sentimento que não existe através de uma definição.

As aspirações do sujeito, o “objeto-valor”, é a constância do sentimento que vence todas as contradições, os altos e baixos. No texto o que é possuído como valor é a sublimidade do amor espiritual. Enfim, existe a conjunção com contradições que confundem o significado do sentimento enfocado e a disjunção com o sentimento interior.

A atribuição do amor verdadeiro com alegria de ser constante, perseverante e capaz de ver o outro na totalidade é o único sentimento capaz de transformar o mundo, desde que não seja insinuado, mas vivido. E quem vive o amor não precisa discursar sobre ele, uma vez que este é exteriorizado pelo testemunho de vida. Só quem ama sabe o que é amor.

Bibliografia:
FIORIN, José Luiz e SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto. 12. ed. São Paulo: Ática.

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