Conotação

Mestre em Linguística, Letras e Artes (UERJ, 2014)
Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFBA, 2007)

A gramática caracteriza a linguagem como um sistema simbólico representado por signos e utilizado com a finalidade de realizar a intercomunicação social, expressando, em geral, idéias e sentimentos. A palavra possibilita aos falantes a representação do pensamento, a criação, e nessa interação linguística os usuários constroem novos sentidos para diferentes termos. Logo, na prática, no uso real da linguagem, as palavras ganham vida e recebem significados para além daqueles descritos nos dicionários. A este processo a linguística denomina de conotação. Segundo Rodolfo Ilari, em seu livro “A Introdução à Semântica”, conotação é o efeito de sentido pelo qual a escolha de uma determinada palavra ou expressão dá informações sobre o falante, sobre a maneira como ele representa o ouvinte, o assunto e os propósitos da fala em que ambos estão engajados. (página 41) Nessa definição o autor leva em consideração variantes linguísticas como fatores que influenciam diretamente no modo de falar, revelando origem geográfica, faixa etária, grupo social, pelas escolhas feitas por cada falante no ato de fala ou em uma enunciação e dos diversos sentidos atribuídos às suas escolhas. Vejamos o exemplo à seguir:

Em um diálogo entre dois usuários da língua portuguesa de diferentes regiões do país pode ficar claro o estado de origem de um deles a depender do signo (palavra) escolhido para designar certo significado. Para se referir ao biscoito (termo utilizado o Rio de Janeiro, por exemplo), os falantes do estado de São Paulo usam a palavra “bolacha”. Encontramos essas variações em alguns outros termos, tais como aipim, mandioca ou macaxeira. Cada região do Brasil usa uma forma para se referir à raiz, e cada vez que um sujeito utiliza-se de uma dessas formas, a linguagem revela sua origem, ou seja, conforme Ilari; dá informações sobre o falante.

De acordo com as gramáticas descritivas, entende-se por conotação a propriedade de atribuir um novo sentido a um termo já conhecido; ou ainda diversos sentidos a um único termo, tornando implícito atributos diferentes. Trata-se do sentido figurado aplicado à linguagem. Os sentidos conotativos representados por uma palavra ou expressão vão além dos significados definidos pelo dicionário, podendo manter relação com o contexto em que o termo está inserido. Veja alguns exemplos do efeito de sentido conotativo em relação ao sentido denotativo:

A palavra “barato” pode assumir diferentes significados dentro de cada contexto:

Quando o preço de um produto não está elevado: O chocolate estava barato em relação aos outros mercados. (sentido denotativo)

Quando um acontecimento foi muito bom ou divertido: Todos se divertiram muito, a festa foi um barato. (sentido conotativo)

O substantivo “sol” pode assumir outros sentidos de acordo com aquilo que o falante quer expressar:

O signo ocorre diretamente ligado ao significante: A luz do sol iluminou toda a casa.

O signo pode ocorrer com sentido diverso de seu significante, fazendo uma referência a uma parte de seu significado: Ela traz um sol em seu peito.

O signo pode fazer uma referência ao que o significante representa: O meu filho é o sol dos meus dias.

A mesma situação ocorre com outros termos, tais como:

Ao acender as lâmpadas ambiente ficou mais claro. (sentido denotativo)

Tudo ficou mais claro com aquela explicação. (sentido conotativo)

É claro que Marisa irá ajudar Pedro.

A criança cortou a cara ao cair no chão.

“Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio”

Mais uma vez o povo quebrou a cara com o governo eleito.

A linguagem poética explora os efeitos conotativos da linguagem, reelaborando, enfatizando ou transformando significados, criando novas referências, como se verifica no poema de Hilda Hilst, do livro “Cantares”.

VII

Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.

Aldeia é o que eu sou. Aldeã de conceitos

Porque me fiz tantos de ressentimentos

Que o melhor é partir. E te mandar escritos.

Rios de rumor no peito: que te viram subir

A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras

Mas com a mulher, aquela,

Que sempre diante dela me soube tão pequena.

Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.

Perdi-me tanto em ti

Que quando estou contigo não sou vista

E quando estás comigo vêem aquela.

(HILST, Hilda. Cantares. – São Paulo: Globo: 2004. – página 23)

A construção de toda a poesia é um admirável exemplo de como as palavras podem ter sentidos outros, diferentes dos usos cotidianos. A identidade desta mulher se funde à aldeia, seu peito ao rio, atribuindo características humanas a seres inanimados.

Bibliografia:

ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica – brincando com a gramática. 3. ed. – São Paulo: Contexto, 2002.

ILARI, Rodolfo. Introdução ao estudo do léxico – brincando com as palavras. – São Paulo: Contexto, 2002.

GARCIA, Maria Cecília. Minimanual compacto de gramática da língua portuguesa: teoria e prática – 1. ed. – São Paulo: Rideel, 2000.

CUNHA, Celso e CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. – 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. – 37. ed. rev., ampl. e atual. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

HILST, Hilda. Cantares. – São Paulo: Globo: 2004. – (Obras reunidas de Hilda Hilst)

CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Editora Vozes. 1977.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas um manifesto. Tradução: Denise Bottmann. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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