Hipertimesia

Mestre em Neurologia / Neurociências (UNIFESP, 2019)
Especialista em Farmácia clínica e atenção farmacêutica (UBC, 2019)
Graduação em Farmácia (Universidade Braz Cubas, UBC, 2012)

A hipertimesia é um tipo de hipermnésia também conhecida como síndrome hipertimésica, caracterizada pela incapacidade de esquecer lembranças do passado, de forma detalhada e precisa. O paciente com essa patologia possui uma memória capaz de lembrar de todos os acontecimentos que já pontuaram sua vida, sem esquecer de detalhes que normalmente uma pessoa esqueceria, neste caso se lembra de qualquer época independentemente da idade atual.

A princípio se imagina que ter uma memória capaz de resgatar qualquer informação seja algo bom, ou vantajoso, porém após o indivíduo com a síndrome hipertimésica se tornar adolescente, essas memórias passam a fazer parte constante de seus pensamentos, e com o passar dos anos essas lembranças passam a ocupar de forma muito significante os pensamentos do portador da síndrome, dificultando tarefas diárias. Há relatos de pacientes, em fase adulta, que são capazes de lembrar detalhes de coisas que passaram a partir do 1º ano de vida, e a partir daquela primeira memória o paciente não esquecer mais de nenhum dia, e sem esquecer fatores como horário, clima e dia da semana. No mundo há apenas 20 pessoas que foram diagnosticadas com a síndrome hipertimésica.

Por ser extremamente raro, essa condição foi pouco estudada até o momento e segundo as pesquisas essa patologia possui determinadas semelhanças ao autismo e é caracterizada pela utilização de mais partes do cérebro para armazenar memórias consideradas de longo prazo e por esse motivo o indivíduo passa uma quantidade anormal de tempo pensando em coisas que ocorreram em datas específicas e se lembrando detalhes dos eventos ocorridos.

É imprescindível ressaltar a diferença entre os portadores da síndrome hipertimésica e aqueles com memória excepcional. Indivíduos com hipertimesia tendem a lembrar de eventos autobiográficos, ou que tiveram significância em sua vida mudando algo no seu dia-a-dia e pessoas com memórias excepcionais geralmente utilizam estratégias para memorizar determinadas informações, o que não ocorre em pacientes com a hipertimesia.

Dos 20 casos confirmados no mundo o mais conhecidos é o da americana identificada como Jill Price, que foi a primeira pessoa diagnosticada com a hipertimesia no mundo. Segundo Jill ela notou que sua memória era superdesenvolvida em 1978 aos 12 anos de idade e a partir de 5 de fevereiro de 1980, uma terça-feira, já aos 14 anos, ela pode recordar de todos os dias. Exames feitos em Jill mostraram que seu hipocampo e córtex pré-frontal são normais. Porém de acordo com o psicólogo Gary Marcus seu cérebro é semelhante a de pessoas com TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e sua memória é um subproduto de fazer anotações compulsivamente em diários. Jill não reagiu bem às observações feitas pelo psicólogo.

Apesar das informações serem concretas e confirmadas ainda há muitas discussões acerca do que realmente levaria a pessoa a desenvolver tais habilidades e esse debate está longe de se encerrar. Alguns estudiosos acreditam que não há evidências suficientes para sugerir que as habilidades destas pessoas precisam de explicações pois são apenas competências que foram desenvolvidas e que a cada dia essas pessoas ensaiam as lembranças. Esses casos levantaram também a discussão do que entendemos por memória saudável, pois não se trata apenas de lembrar as informações que são importantes para nós, mas também de esquecer aquilo que não é, levanta também a discussão de até quanto o cérebro é capaz de reter de memória e quanto disso tudo é uma memória saudável?

No ano de 1961 o pesquisador Wilder Penfield e colaboradores relataram em seu estudo que a estimulação de lobos temporais de maneira específica resulta em lembrança de fatos vividos, e concluíram que nossos cérebros são capazes de registrar as informações e armazenar porém de forma não consciente e acessível para nós. Isso nos leva ainda a aumentar a necessidade de estudo sobre memória, para conhecer os mecanismos neurofisiológicos envolvidos na armazenagem das informações.

Bibliografia:

Conheça o jovem que nunca esquece nada de sua própria vida. BBC Brasil. 24 de setembro de 2012

Hyperthymesia ou hipertimesia». 15 de abril de 2012.

Gray, Keturah; Escherich, Katie ''It Makes Me Crazy: Woman Can't Forget', ABC NewsMay 9, 2008

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