Aspectos pedagógicos do termo Competência

Licenciatura Plena em Química (Universidade de Cruz Alta, 2004)
Mestrado em Química Inorgânica (Universidade Federal de Santa Maria, 2007)

Philippe Perrenoud é doutor em Sociologia e Antropologia, suíço, e tem se tornado uma referência para muitos educadores em virtude de suas ideias e pesquisas na área de formação de professores, avaliação dos alunos e, principalmente, ensino por competências, temática esta que representa a discussão central deste texto. Atua atualmente em áreas relacionadas ao currículo, nas faculdades de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genebra, apesar de não possuir formação de pedagogo.

Sua influência na educação brasileira iniciou a partir da década de 1990, e hoje pode ser conceituada como pedagogia por competências, conforme tem sido debatido no âmbito escolar.

Inicialmente, a definição do termo competência parece de fundamental importância ao que se pretende expor, e observa-se que esta tarefa não é simples de ser feita. O conceito de competência tem recebido diferentes significados, às vezes contraditórios, e nem sempre suficientemente claros. Por isso, acaba sendo usado de forma imprecisa e polissêmica, dando margem a diferentes interpretações. Tal amplitude de significados pode estar relacionado aos diversos estudos acadêmicos sobre o tema, às representações dos professores e à própria configuração assumida pelo termo no contexto do mundo do trabalho.

Para Meirieu (1998, p.01), “a noção de competência é multidimensional, envolvendo facetas que vão do individual ao sociocultural, situacional (contextual-organizacional) e processual”. Porém a plasticidade dessa noção pode representar um perigo, pois, “ao ser associada aos mais diversos discursos, acaba por ser aceita sem maiores restrições, como uma opção válida para qualquer concepção.” (CHEVALLARD, 1991, p. 61). Muitos estudos, como os de Durand (2001), mostram a dificuldade que se encontra na tentativa de melhor precisar uma competência, bem como delimitar os universos em que a mesma é utilizada. No entanto, pode ser vista como “a construção dos conceitos científicos que fundamenta a execução das ações de forma competente, criativa e inovadora” (RAMOS, 2001, p. 76).

As articulações do conceito de competência ao mundo do trabalho são constantes. Rey (2002, p. 71) concebe competência como “a capacidade de articular, mobilizar e colocar em ação valores, conhecimentos e habilidades necessários para o desempenho eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do trabalho”. Assim também pensa Arruda (2000, p. 115) quando afirma que a competência profissional é “a capacidade de mobilizar múltiplos recursos, entre os quais os conhecimentos teóricos e experiências da vida profissional e pessoal, para responder às diferentes demandas das situações de trabalho”.

De acordo com Deluiz (2001), a noção de competência começou a ser utilizada na Europa a partir dos anos 1980. Para a autora, ela origina-se das Ciências da Organização e surge no quadro de crise do modelo de organização taylorista/fordista, de mundialização da economia, de exacerbação da competição nos mercados e de demandas de melhoria da qualidade dos produtos e de flexibilização dos processos de produção e de trabalho (DELUIZ, 2001, p. 12). Segundo Machado (2001), no Brasil, apesar de já ser conhecida no âmbito das ciências humanas (notadamente no campo das ciências da cognição e da lingüística) desde os anos 70 passa a ser incorporada nos discursos dos empresários, dos técnicos dos órgãos públicos que lidam com o trabalho e por alguns cientistas sociais, como se fosse uma decorrência natural e imanente ao processo de transformação na base material do trabalho.

Em relação à dimensão pedagógica do termo, surge com intensidade sua correlação com a resolução de problemas. A literatura corrente sobre a noção de competência assinala, segundo Deluiz (2001), em termos gerais, ...que a competência é a capacidade de articular e mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes, colocando-os em ação para resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade em uma dada situação concreta de trabalho e em um determinado contexto cultural (DELUIZ, 2001, p. 13).

Ainda privilegiando a dimensão pedagógica do termo competência, autores como Tardif (2002, p. 4-5) o entendem como “modalidades práticas de utilização de conhecimentos aplicados em situações apropriadas, através de comportamentos e de atitudes típicas em relação às finalidades da tarefa”. Para ele, “ser competente é ser capaz de utilizar e de aplicar procedimentos práticos apropriados em uma situação de trabalho concreta” (Idem, ibidem). Já para Machado (2002, p. 33), “competência é a virtualização de uma ação, a capacidade de recorrer ao que se sabe para realizar o que se deseja, o que se projeta”.

Sabe-se que a atual conjuntura da sociedade, em termos de formação curricular, tem exigido das instituições de ensino, em todos os seus níveis, uma grande responsabilidade em termos de inovações de suas práticas pedagógicas e metodológicas. Particularmente no que tange às instituições de educação básica, há hoje a nítida necessidade de se formar alunos aptos às exigências do mundo do trabalho e de seu contexto particular. Para Perrenoud (1999, p. 08), “cabe aos profissionais do ensino, em geral, uma parcela expressiva da responsabilidade de realização de tais transações, e para tanto, suas competências devem estar alinhadas com as demandas da sociedade moderna”. Assim, surge um novo olhar sobre o sentido da educação escolar, o qual será neste texto direcionado às noções metodológicas da questão. A escola de hoje não pode mais se pensar isolada, seletiva, apartada da vida “lá fora”, pois seu “aqui dentro” e o “lá fora” são partes de um mesmo contínuo e expressam o jogo de posições e o colorido do que podemos ser na diversidade dos tempos e lugares da nossa existência. (MACHADO, 2002, vi)

Referências:
DELUIZ, D. O Modelo das competências profissionais no mundo do trabalho e na educação: implicações para o currículo. Boletim Técnico do Senac, Rio de Janeiro, v.27, n.3, p.13-25, set./dez. 2001.

MACHADO, L. A Institucionalização da lógica das competências no Brasil. Pró-Posições, Campinas, v. 13, n. 1, p. 92-110, jan./abr. 2002.

PERRENOUD, Philippe. MAGNE, B. C. Construir: as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, 1999.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

ARRUDA, M. C. C. Qualificação versus competência. Boletim Técnico do Senac, Rio de Janeiro, v. 26, n. 2, p.19-27, maio/ago. 2000.

CHEVALLARD, Y. La Transposición didáctica: del saber sabio al saber enseñado. Buenos Aires: Aique, 1991.

DURAND, J.-P. O Modelo da competência: uma nova roupagem para velhas ideias. Revista Latinoamericana de Estudios del Trabajo, México, v. 7, n. 14, 2001.

MACHADO, L. A Institucionalização da lógica das competências no Brasil. Pró-Posições, Campinas, v. 13, n. 1, p. 92-110, jan./abr. 2002.

MEIRIEU, P. Aprender... sim, mas como? 7. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

RAMOS, M. N. A Pedagogia das competências: autonomia ou adaptação? São Paulo: Cortez, 2001.

REY, B. As Competências transversais em questão. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Arquivado em: Pedagogia