O Nascimento de Vênus

Mestre em História da Arte (Unicamp, 2019)
Bacharel e licenciado em História (USP, 2004)

O nascimento de Vênus é uma pintura de têmpera sobre tela pintada por Sandro Botticelli entre 1484-1485, não se conhece o comendatário da tela, porém ela pertenceu a Giovani e Lorenzo Pierfrancesco de Medici e algumas gerações de seus descendentes, até ser comprada pela Galeria degli Uffizi em 1815, onde até hoje se encontra.

O Nascimento de Vênus. obra de Sandro Botticelli.

As prováveis fontes textuais de Botticelli foram os versos de Homero e Ovídio, poetas que narram o nascimento da deusa Vênus, associando-a às aguas do mar e daí, uma de suas denominações, a Vênus Anadiômene (aquele que surgiu das águas do mar).

Outra denominação desta tela é de Vênus Urania, porque sua concepção seria um desdobramento da luta de Chronos (o Tempo) contra seu pai, Uranus (o Céu). Durante a luta, Chronos castra Uranus, cujo pênis cai no mar e ali ejacula. Da mistura do sêmen de Uranus com a espuma do mar, nasceu a deusa Vênus.

No quadro, Vênus emerge das águas sobre uma concha, sendo empurrada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolos das paixões espirituais, e recebendo, de uma Hora (as Horas eram as deusas das estações), uma manto bordado de flores.

O efeito causado pelo quadro, no entanto, foi de paganismo, já que foi pintado em época em que a maioria da produção artística se atinha a temas católicos. Por isso, chega a ser surpreendente que o quadro tenha escapado das fogueiras do pregador dominicano Savonarola, que instigou a destruição de obras que teriam "influências pagãs" consumiram outras tantas obras de arte e objetos de luxo entre 1494 e 1498, quando conseguiu afastar os Medici do governo de Florença, numa espécie de revolução popular.

A anatomia da Vênus, assim como vários outros detalhes menores, não revela o realismo clássico estrito de Leonardo da Vinci ou Rafael. O pescoço é irrealisticamente longo e o ombro esquerdo posiciona-se em ângulo anatomicamente improvável, no entanto, esta escolha se relaciona com a manutenção da harmonia compositiva da tela.

Vênus, a deusa do amor, traz beleza para o mundo. A beleza é considerada divina. Na Florença de Botticelli essa era o pensamento corrente que tentava conciliar as ideias clássicas com o pensamento Cristão e daí uma das principais influências seriam as leituras do filósofo neoplatônico Marsílio de Ficino.

A postura de Vênus relembra uma escultura clássica, a Vênus pudica, cópia romana, presente no Museu do Capitólio, de um original grego, na qual a deusa cobre seus seios e genitais com seus braços, e com o longo cabelo que desce até o joelho.

Os ventos Zéfiro e sua companheira Aura acompanhado do envolvente movimento das pétalas de rosas e das águas são oriundos de uma cena semelhante que decora a “Taça Farnese” e hoje está presente no Museu Nacional Arqueológico de Nápoles.

Os ventos sopram e movem as águas e os cabelos da Vênus e no sentido oposto, uma das Horas, talvez Flora. Esta seria filha de Júpiter e era ligada às estações do ano, acolhe Vênus com um manto, que por conta do vento, oscila intensamente, marcado pelas linhas curvas do tecido no ar ou do próprio tecido colado rente ao corpo de Flora.

Apesar de ser um quadro que remete à tradição greco-romana, Botticelli produz uma interpretação cristã sobre o tema, porque se a Vênus nascera das águas, o nascimento verdadeiro se dava pelo batismo, marcado pela simbologia da concha na qual a Vênus se encontra, que na tradição cristã primitiva era uma alusão ao batismo, o recebimento da graça do Espírito Santo que limparia a mácula do Pecado Original.

Fontes:

ARGAN. Giulio Carlo. História da Arte italiana: da Antiguidade a Duccio. Vol. III, São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

GINANNESCHI, Elena. Galeria Uffizzi: Florença. São Paulo: Editora Publifolha, 2009.

LABNO, Jeannie. Os segredos do Renascimento. São Paulo: Editora Publifolha, 2012.

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