Verbos abundantes

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Os verbos abundantes são aqueles que apresentam mais de uma forma para expressar a mesma ideia e desempenhar a mesma função. Daí a abundância... Na maioria das vezes, a abundância ocorre com os particípios. Vamos estudar alguns dos verbos que se encaixam nessa regra? Para tal, proponho um desafio: complete a lacuna, nesta máxima de Albert Einstein, com “isentado” ou “isento”:

“O único homem que está _____________ de erros é aquele que não arrisca acertar.” Albert Einstein

Primeiramente, é importante frisar que tanto “isentado” quanto “isento” fazem parte da nossa língua. Como há duas formas com o mesmo sentido e a mesma função, podemos afirmar que o particípio do verbo “isentar” é abundante. “Isentado” é um particípio regular (particípio que termina em “do”) e “isento” é um particípio irregular. Mas, voltando ao desafio proposto, qual dos dois particípios preenche a máxima acima? O regular ou o irregular? O irregular! Portanto:

“O único homem que está isento de erros é aquele que não arrisca acertar.” Albert Einstein

A regra geral diz que os particípios regulares devem ser empregados na voz ativa com os verbos “ter” e “haver”. Já os particípios irregulares devem ser empregados na voz passiva com os verbos “ser”, “estar” e “ficar”. Como na máxima de Albert Einstein há o verbo “estar”, o particípio irregular “isento” foi empregado. Veja exemplos de situações com o particípio regular “isentado”:

Foi um erro ter isentado os alunos da responsabilidade.
Naquela época, a lei havia isentado alguns contribuintes.

Confira, a seguir, mais alguns verbos abundantes

Ele tinha acendido as velas pouco antes da missa.
(“acendido” – particípio regular do verbo “acender”).

A imponente fogueira foi acesa na tradicional festa junina.
(“acesa” – particípio irregular do verbo “acender”).

O jovem escondeu dos colegas que tinha ganhado o prêmio.
(“ganhado” – particípio regular do verbo “ganhar”).

O menino não teve medo, pois sabia que o prêmio estava ganho.
(“ganho” – particípio irregular do verbo “ganhar”).

Ele tinha gastado todo o salário com a bebida.
(“gastado” particípio regular do verbo “gastar”).

Foi gasto muito dinheiro na reforma daquele estádio!
(“gasto” – particípio irregular do verbo “gastar”).

Eu não me lembro de ter salvado o trabalho.
(“salvado” – particípio regular do verbo “salvar”).

Graças a Deus, as pessoas foram salvas do incêndio!
(“salvas” – particípio irregular do verbo “salvar”).

Uma observação

De acordo com Cegalla (2008, p.250), a regra geral, mencionada neste artigo, “não é seguida rigorosamente, havendo numerosas formas irregulares que se usam tanto na voz ativa como na passiva, e algumas formas regulares também empregadas na voz passiva”. No primeiro caso, encaixa-se, por exemplo, o particípio irregular do verbo “salvar”, que pode ser usado, segundo o referido gramático, também na voz ativa:

Eu não me lembro de ter salvado o trabalho.
ou
Eu não me lembro de ter salvo o trabalho.

Já no segundo caso, insere-se o particípio regular do verbo “acender”, que pode ser usado, conforme explica Cegalla, também na voz passiva:

A imponente fogueira foi acesa na tradicional festa junina.
ou
A imponente fogueira foi acendida na tradicional festa junina.

Atenção

O particípio do verbo “trazer” não é abundante, ou seja, só tem uma forma (“trazido”):

Eu havia trazido alguns livros para a biblioteca.

A vítima foi trazida de helicóptero para o hospital.

Para concluir

Os verbos abundantes, como o próprio nome indica, são os verbos que apresentam mais de uma forma com o mesmo sentido e a mesma função. Essa abundância concentra-se nos particípios.

Referências:

BECHARA, Evanildo. Novo dicionário de dúvidas da língua portuguesa. 1.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Verbos abundantes. In: ___ Novíssima gramática da língua portuguesa. 48.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. p. 249-251.

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Verbos abundantes. In: ___ Nova gramática do português contemporâneo. 5.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008. p.456-457.

EINSTEIN, Albert. Disponível em: <https://www.pensador.com/autor/albert_einstein/4/>. Acesso em: 15 de outubro de 2019.

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