Verbos impessoais

Especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF)
Graduação em Letras (Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, FUNCESI)

Em agosto, fez onze anos que eu me formei em Letras! Opa! Está certo isso? “Em agosto, fez onze anos”? ou “Em agosto, fizeram onze anos”? Resposta certa: “Em agosto, fez onze anos”! No singular! Por quê? Porque o verbo “fazer” é impessoal quando indica tempo decorrido ou a decorrer. O que é um verbo impessoal? É o verbo que não tem sujeito. Por isso, devemos empregá-lo sempre na 3ª pessoa do singular.

O verbo, que forma uma locução com um verbo impessoal, também fica no singular:

Vai fazer dois anos que eles foram para o exterior.

Caso o verbo “fazer” tenha sujeito, deve concordar com ele:

As crianças fazem três anos hoje.
(O verbo “fazer” na frase acima tem sujeito: “As crianças”. Por isso, concorda com ele).

Confira outros exemplos de verbos impessoais a seguir

Verbo “haver”

O verbo “haver”, assim como o verbo “fazer”, é impessoal quando indica tempo. Veja-o neste poema de Carlos Drummond de Andrade, que nos transporta para épocas antigas:

Lembranças do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes, outros elementos eram azuis, róseos e alaranjados.
O guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisava a relva para pegar um pássaro...
O mundo inteiro, a Alemanha, a China,
tudo era tranquilo em redor de Clara.

As crianças olhavam o céu!
Não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos!
Não havia perigos.
Os perigos que Clara temia eram
a gripe, o calor, os insetos...
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
Nem sempre podia usar vestido novo.
Mas passeava no jardim pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs, naquele tempo!!!

Releia estes versos do poema:

Não havia perigos.

Havia jardins, havia manhãs, naquele tempo!!!

O verbo “havia” exprime tempo nos versos acima, sendo sinônimo de “existir”. Nesse caso, é impessoal e, por isso, está no singular. Mas, atenção: o verbo “existir” não é impessoal, ou seja, tem sujeito e concorda com ele. Desse modo, observe os referidos versos com o verbo “existir” no lugar do verbo “haver”:

“Não existiam perigos”.

“Existiam jardins, existiam manhãs, naquele tempo!!!”

Verbo “passar de”

Quando usamos a expressão “passar de” para nos referirmos às horas, devemos usar o singular. Sim, “passar de” também é impessoal. Portanto, diga: “Não vejo a hora de ir embora da empresa, mas nem passou das duas ainda... Quer dizer, não diga isso, não... Ânimo no trabalho faz bem...

Verbos “chover”, “nevar”, “relampejar”, “ventar”...

Os verbos que indicam fenômenos meteorológicos são impessoais:

Choveu torrencialmente na região sul, que muitos ficaram desabrigados!

Nevara bastante naquele lugar, que as pessoas não puderam sair de casa...

Sinto tanto medo quando relampeja, que até me escondo debaixo do cobertor.

Uma ressalva: o verbo “chover” no sentido figurado não é impessoal:

Que chovam muitas bênçãos em sua vida!

Choviam pétalas de flores naquela tradicional festa!

Choviam sugestões dos funcionários para a melhoria da empresa.

Verbos “bastar” e chegar”

Os verbos “bastar” e “chegar” são impessoais quando usados para expressar a ideia de “suficiência”.

“Basta de reclamações por hoje!”
(não: “Bastam de reclamações por hoje!”)

“Chega de piadas no ambiente de trabalho!”
(não: “Chegam de piadas no ambiente de trabalho!”)

Para concluir: Os verbos são impessoais quando não têm sujeito. Por isso, devemos empregá-los sempre na 3ª pessoa do singular. E, vale reforçar, os verbos que formam locuções com os impessoais também ficam no singular. Então, nada de empregar os verbos no plural e achar que está arrasando, hein?

Referências:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Lembranças do mundo antigo. In: ___ Sentimento do Mundo, 1940.

BECHARA, Evanildo. Novo dicionário de dúvidas da língua portuguesa. 1.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Verbos impessoais. In: ___ Novíssima gramática da língua portuguesa. 48.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. p. 462-463.

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Verbos impessoais. In: ___ Nova gramática do português contemporâneo. 5.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008. p. 458.

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