Patriarcalismo

Licenciatura Plena e Bacharelado em Ciências Sociais (Faculdade de Ciências e Letras UNESP, 2015)
Mestrado em Ciências Sociais (Faculdade de Ciências e Letras UNESP, 2017)

O patriarcalismo é uma forma de construção social baseada no patriarcado. O patriarcado é o domínio social ou uma estrutura de poder social centralizada no homem ou no masculino. É baseada na própria ideia de paters, figura do pai. E relaciona instâncias públicas e privadas da vida social. É uma estrutura bastante comum na sociedade humana, mas é contestada por diferentes grupos sociais em vários momentos da história, devido à pouca ou nenhuma ação que impõe às mulheres. O patriarcado associa a biologia à cultura, no sentido de diferenciar os papeis sociais baseados em papeis sexuais. Em geral, cargos de maior importância cultural são destinados a homens, enquanto cargos de importância familiar são relegados às mulheres.

Weber ressalta que os sistemas religiosos estabelecem uma relação íntima entre sociedade, sexualidade e erotismo, porquanto eles são também sistemas de controle da sexualidade e da reprodução. Associando sexualidade com práticas mágicas e com o comportamento religioso comunal, Weber observa, ainda, que tanto as religiões místicas, quanto as ascéticas, são hostis à sexualidade [...]Para que este controle social se efetue as mulheres são assemelhadas, pelos sistemas religiosos, às criaturas irracionais (ou de difícil autocontrole, isto é, com grande capacidade de ocasionar o descontrole, ou como seres capazes de causar emoção em quem as circunda, inclusive pelos desejos que podem despertar (Weber, 1964, p. 238). A contenção desses sentimentos muitas vezes se estabelece pela instituição de regras sobre as vestimentas, normatizando que sejam cobertas as partes do corpo feminino que podem suscitar desejos nos homens. (AGUIAR, 2000, pp. 309-310).

A ideia de patriarcalismo, como estrutura social, é ainda uma construção social considerada androcrática e androcêntrica. Androcracia se refere às diferentes dominações e estruturas de poder que um homem, por ser especificamente homem, pode construir em sua sociedade. E Androcentrismo se relaciona às preponderâncias que as ações masculinas terão nessa sociedade, ou seja, a atenção e mesmo a importância que essas ações possuem e tem capacidade de transformar atividades ou situações sociais.

Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Dentro de casa, a situação não foi necessariamente melhor. Entre os casos de violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Após sofrer uma violência, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda. (FRANCO, 2019).

O conceito do patriarcado e as dominações sociais relacionadas ao poder masculino preponderante na sociedade são temas abordados, em geral, por estudos de gênero. Esses estudos, principalmente da linha feminista, identificam que existe uma situação de desigualdade de gêneros na sociedade que vem em decorrência da associação cultural de papeis sociais a biologia. Esses papeis determinam que a mulher estaria em desigualdade com o homem e seria inferior a este. Essas ideias são amparadas em dados estatísticos de violências contra a mulher, de construção de discursos e de ideias sociais sobre o que é o feminino como pejorativo, frágil e menor.

“As mulheres foram criadas para obedecer e servir aos homens. Os homens devem ser fortes para prover sua família, para desenvolver estratégias e liderar – e também podiam esperar ser servidos. Esses são os papeis de gênero aparentes em todas as instituições de uma comunidade, desde famílias, escolas e estádios, até os tribunais. Quando desafiadas, tais ideias podem ser impostam pela violência. Mas, às vezes, um olhar mais frio ou a gozação de colegas são o suficiente para fazer que alguém mude seu comportamento, para que seja mais condizente com seu papel de gênero. Um menino chorão ou uma menina agressiva talvez percebam, com certa rapidez, que transgrediram os papeis de gênero para eles. Uma das coisas mais traiçoeiras a respeito do patriarcado, diz hooks, é que não se fala dele [...] Os homens quase nunca sabem o que a palavra “patriarcado” quer dizer – eles não a usam no cotidiano a despeito de aplicarem suas regras ao mesmo tempo que sofrem com elas.” (THORPE et al, 2016, p. 94)

Como o discurso do patriarcado é inerente à nossa condição cultural, existe a argumentação que esta é uma situação “natural”. As autoras feministas questionam essa associação percebendo que as condições físicas das mulheres não são consideradas nesta afirmação, visto que ambos os gêneros são igualmente capazes de construir socialmente, trabalhar e se relacionar. Porém, a partir de um entendimento cultural do que é a biologia feminina, considerada frágil até mesmo pela ciência até o século XX, isso se estenderia a condição social da mulher, tornando-a um ser que sofre ações e não que é protagonista dessas ações.

“Enquanto as primeiras feministas focaram a identificação de uma única causa do patriarcado, ligada a uma era histórica, ou cultura particular, Walby define o patriarcado como “um sistema de estruturas e práticas sociais no qual os homens dominam, oprimem e exploram as mulheres”. Ela alega que existem seis estruturas em interação: a família, o trabalho pago, o Estado, a violência masculina, a sexualidade e as instituições culturais.” (THORPE, 2016, p. 96)

Pensar o patriarcalismo como estrutura de poder que deriva do patriarcado, envolve observar também estruturas históricas. Em termos de Brasil, a construção patriarcal envolve as particularidades da formação nacional e do pensamento social brasileiro.

“Uma importante contribuição para a análise do patriarcado a partir do contexto brasileiro é oferecida por Jeni Vaitsman (1994). A autora examina criticamente o sistema de classificação das famílias que as diferencia entre patriarcal ou extensa e nuclear ou burguesa, apontando que a família burguesa, de fato, é uma família patriarcal. Com a separação entre casa e trabalho, inaugura-se a divisão do sexual e do trabalho, com especialização das funções de provisão da casa e de cuidados com os filhos. O processo de modernização brasileiro, portanto, inaugura uma nova modalidade de patriarcado. A concepção de uma família patriarcal burguesa, portanto, permite explicar porque o desenvolvimento capitalista e a industrialização geram iniquidades de gênero.” (AGUIAR, 2000, p. 325-326)

Autores da sociologia brasileira associam a formação da sociedade e do Estado brasileiro com a construção de estruturas patriarcais, relacionando-as com o patrimonialismo. A figura do pai, ou do senhor de terras, é extremamente forte na nossa sociedade a ponto de organizar por séculos as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e domesticas. Nesta estrutura, todas as mulheres estão sujeitas a uma posição de inferioridade por sua posição ser vista como um apêndice do patriarca, destinadas a geração de filhos (legítimos ou bastardos) para domínio e herança daquele. O destino da mulher, neste sentido, é biológico pois a sua função social é apenas a construção da família e a manutenção dos filhos. Isso se torna ruim pois acaba por diminui a importância e capacidade de uma pessoa, restringindo-a a uma condição inferior, controlada por outros e sem ação social.

“Um dos autores que mais se detém na análise do patriarcado é Gilberto Freyre. Independentemente das relações entre a organização do grupo doméstico e a forma de dominação estatal, o autor mostra que o patriarcalismo estabeleceu-se no Brasil como uma estratégia da colonização portuguesa. As bases institucionais dessa dominação são o grupo doméstico rural e o regime da escravidão. A estratégia patriarcal consiste em uma política de população de um espaço territorial de grandes dimensões, com carência de povoadores e de mão-de-obra para gerar riquezas. A dominação se exerce com homens utilizando sua sexualidade como recurso para aumentar a população escrava. A relação entre homens e mulheres ocorre pelo arbítrio masculino no uso do sexo. (AGUIAR, 2000, p. 308)

“A Igreja, por intermédio dos conventos, é a principal proprietária de escravos. Em função disso, Nabuco demonstra como nos EE.UU. [EUA] a religião se torna a campeã dos direitos civis, lugar institucional em que se refugia a população negra. No caso do Brasil, esta nega os sacramentos aos escravos. Na ausência de racionalização das relações sociais pelo caminho religioso, os escravos se vêem lançados à promiscuidade e à magia, aponta o autor. O que Nabuco caracteriza como uma forma de primitivismo pode ser compreendida como uma resistência das mulheres à escravidão, rejeitando serem usadas como aparelho reprodutivo pelos senhores de terra. As mulheres (Nabuco, 1988, p.38) usam ervas daninhas e venenos, matando o feto no ventre, e enterrando-o no mato. [...]Observa também que o feto era de propriedade do senhor, estando condenado à escravidão. O estado de gravidez, todavia, não isenta a escrava de prestar serviços forçados. A paternidade inexiste, observa Nabuco, pois a família é negada, e a escrava está sujeita à luxúria dos brancos. A amamentação realiza-se conjuntamente com os trabalhos cativos.” (AGUIAR, 2000, 310-311).

O que percebe-se é que o patriarcalismo é uma estrutura social de poder que institui uma desigualdade entre homens e mulheres, com os primeiros exercendo dominação sobre as segundas e estruturando sua ação no social. Essa estrutura, porém, é construída social e historicamente e demanda o entendimento de igualdade entre as pessoas para que se possa diminuir e apagar seus efeitos nocivos. O patriarcalismo envolve necessariamente opressão e dominação social, por práticas e ideias que se perpetuam pela reprodução social impensada.

“Na introdução do livro, Beauvoir ressalta que o homem pode “persuadir-se de que não existe hierarquia social entre os sexos e de que, grosso modo, através das diferenças, a mulher é sua igual”. Essa igualdade abstrata nega a desigualdade concreta: salários mais altos, cargos e lugares mais importantes na indústria e na política. A igualdade de direitos precisa estar inegociavelmente atrelada à igualdade de oportunidades materiais e simbólicas. Sendo a desigualdade simbólica ainda mais difícil de combater, já que ela envolve educação, hábitos, costumes e um sistema de coerção, dominação e exploração que beneficia os homens: “o presente envolve o passado e no passado a história foi feita pelos homens”.” (LIMA, 2015)

REFERENCIAS:

AGUIAR, Neuma. Patriarcado, sociedade e patrimonialismoSociedade e estado, v. 15, n. 2, p. 303-330, 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69922000000200006&script=sci_arttext

FRANCO, Luiza. Violência contra a mulher: novos dados mostram que 'não há lugar seguro no Brasil'. BBC News Brasil, São Paulo, 26 fev. 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503

LIMA, Daniela. A mulher é um devir histórico: rastros de Beauvoir no Brasil. Blog da Boi Tempo. 08 set 2015. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2015/09/08/a-mulher-e-um-devir-historico-rastros-de-beauvoir-no-brasil/

PÉREZ, Victoria A. Ferrer; FIOL, Esperanza Bosch. Violencia de género y misoginia: reflexiones psicosociales sobre un posible factor explicativo. Papeles del psicólogo, n. 75, p. 13-19, 2000.

THORPE, C. et al. O livro da Sociologia. São Paulo: GloboLivros, 2016.

Arquivado em: Sociedade