Minorias dominantes

Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

Minorias, em sociologia, dizem respeito aos grupos sociais que se encontram marginalizados em função de suas características socioeconômicas, culturais, físicas ou religiosas. Mas o que se quer dizer, então, quando se emprega a expressão minoria dominante? Ora, inverte-se a questão: uma minoria dominante é um grupo populacional que, apesar de ser uma minoria demográfica, detém um poder desproporcional a seu contingente populacional. É, portanto, uma ameaça para a própria democracia ao permitir que um pequeno número de pessoas, geralmente vinculadas a pertenças étnicas, culturais ou religiosas, exerça amplo domínio político sobre a maior parte da população.

Os casos históricos nos ajudam a entender melhor a questão, sendo um dos mais emblemáticos o regime do Apartheid na África do Sul. Embora a discriminação racial remonte ao passado colonial, a partir de 1948 instituiu-se uma política oficial de segregação com amplos efeitos: separou-se racialmente a população, por meio de remoções forçadas e de um zoneamento demográfico racialmente orientado, chegando ao extremo de serem os negros privados de sua cidadania sul-africana. Nesse caso, a minoria branca do país conseguiu institucionalmente cercear os direitos da maioria negra, findando o regime apenas em 1994 com a eleição do líder negro Nelson Mandela.

Também na América Latina testemunhamos processos de dominação de minorias étnico-raciais sobre maiorias, como exemplifica bem o quadro da Bolívia. Ainda que com uma ampla maioria de indígenas e mestiços em sua composição populacional, as elite crioulas, descendentes dos colonizadores espanhóis, dominaram os quase 200 anos da história nacional. É apenas em 2006, com a eleição do líder indígena Evo Morales, que a ampla maioria populacional passaria a ser representada de forma efetiva, tomando o poder político das mãos da minoria crioula que dominava. Situações parecidas também ocorrem em outros países latinos, como na Colômbia, Equador, Peru e Chile, indicando um processo de relação entre a colonização desses países e suas atuais disparidades entre as maiorias da população alijadas do poder e as minorias da elite que ainda controlam os rumos dessas nações.

Se até aqui foi enfatizado o dilema que se impõe geralmente ligado aos traços demográficos de etnia, raça, religião e cultura, também é possível falar de uma minoria dominante em termos especificamente econômicos. Nos protestos ocorridos em Nova Iorque em 2011, no movimento que ficou conhecido como “Occupy Wall Street”, o lema entoado afirmava: “Nós somos os 99%”. Desse modo, denunciavam a extrema desigualdade entre a elite do sistema capitalista, a parcela de 1% da população mais rica, em relação a todos os demais cidadãos.

Não há possibilidade para o sucesso de uma sociedade que se pretenda democrática se essa se basear na exclusão de suas maiorias ao troco da manutenção e do privilégio das minorias que controlam historicamente o poder político. Até porque são vários os instrumentos que essa minoria dominante se utiliza para perpetuar a situação de exclusão, frequentemente instaurando procedimentos que bloqueiam de forma institucional o acesso dessas camadas excluídas aos pleitos democráticos, por exemplo. É contra essa perversão que as regras de uma sociedade democrática devem ser pensadas, de modo a evitar dois males: o poder absoluto de uma maioria sobre as minorias mas também, como foi aqui tratado, a perpetuação de minorias como elites políticas que privam amplas maiorias dos povo aos seus direitos políticos e sociais mais elementares.

Fontes:

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988.

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