A inseminação artificial em tempo fixo (IATF) é uma técnica de reprodução animal em que a ovulação das fêmeas é sincronizada com hormônios. Assim, todas podem ser inseminadas no mesmo dia e horário, sem que seja preciso observar o cio de cada uma. É usada principalmente em bovinos de corte e de leite, mas também em búfalas, ovelhas e cabras.
O Brasil está entre os países que mais usam a IATF no mundo. Na pecuária de corte brasileira, a maior parte das inseminações já é feita dessa forma.
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Por que a IATF foi criada
Na inseminação artificial (IA) convencional, o sêmen é depositado no útero da vaca algumas horas depois de ela manifestar o cio, também chamado de estro. O problema é identificar esse momento. O cio da vaca dura poucas horas, muitas vezes acontece à noite e, em raças zebuínas como o Nelore, costuma ser discreto.
Além disso, muitas vacas de corte entram em anestro depois do parto, isto é, ficam semanas ou meses sem ciclar. Com isso, boa parte do rebanho deixava de ser inseminada. A IATF resolve os dois problemas: o protocolo hormonal faz a vaca ovular em hora marcada, mesmo que o cio não seja observado, e pode induzir a ciclicidade em vacas em anestro.
Como funciona o protocolo
Os protocolos imitam e controlam o ciclo estral natural da vaca, que dura em média 21 dias. O objetivo é sincronizar três eventos: o início de uma nova onda de crescimento dos folículos (as estruturas do ovário onde o óvulo amadurece), a regressão do corpo lúteo e o momento da ovulação.
Um protocolo comum no Brasil, à base de progesterona e estradiol, segue mais ou menos este roteiro:
| Dia | O que é feito | Para quê |
|---|---|---|
| D0 | Colocação de um dispositivo intravaginal com progesterona e aplicação de benzoato de estradiol | Iniciar uma nova onda folicular e impedir a ovulação antes da hora |
| D7 a D9 | Retirada do dispositivo e aplicação de prostaglandina F2α, de um indutor de ovulação (como o cipionato de estradiol) e, em muitos casos, de eCG | Eliminar o corpo lúteo e estimular o crescimento final do folículo |
| D9 a D11 | Inseminação, cerca de 48 horas após a retirada do dispositivo | Depositar o sêmen pouco antes da ovulação |
Os detalhes, como os dias exatos, as doses e os produtos, variam conforme a categoria do animal (vaca, novilha, vaca de leite) e devem ser definidos pelo médico veterinário.
Hormônios usados
- Progesterona e progestágenos: a progesterona é o hormônio que mantém a gestação e bloqueia a ovulação. Progestágenos são compostos sintéticos com ação semelhante. São usados em implantes vaginais ou auriculares de liberação lenta.
- Estrógenos, como o benzoato e o cipionato de estradiol: no início, ajudam a sincronizar a onda folicular. No fim, induzem a ovulação e os sinais de cio.
- Prostaglandina F2α e seus análogos sintéticos, como o cloprostenol: provocam a regressão do corpo lúteo.
- Gonadotrofinas e GnRH: o GnRH e o LH (hormônio luteinizante) induzem a ovulação. A eCG, gonadotrofina coriônica equina, estimula o crescimento do folículo, sendo útil em vacas magras ou com bezerro ao pé.
São substâncias iguais ou muito parecidas com as que o próprio organismo produz e, nas doses dos protocolos, são metabolizadas rapidamente. Ainda assim, devem ser usadas conforme a bula e com orientação veterinária, respeitando os períodos de carência indicados para leite e carne.
Vantagens
A principal vantagem é inseminar muitas fêmeas em pouco tempo, no início da estação de monta. Isso adianta as prenhezes e concentra os nascimentos, o que gera lotes de bezerros mais uniformes e facilita o manejo. Também amplia o uso de touros geneticamente superiores, já que o sêmen de um único reprodutor pode ser levado a milhares de vacas.
Outras vantagens são a menor necessidade de touros na fazenda, o que reduz o custo de compra e manutenção, e o controle de doenças sexualmente transmissíveis, como a campilobacteriose e a tricomonose. A técnica pode ainda ser combinada com sêmen sexado, para obter mais fêmeas no leite ou mais machos no corte.
Em boas condições, a taxa de prenhez em uma única IATF costuma ficar entre 45% e 60%. Muitas fazendas fazem uma segunda ou terceira IATF (a chamada ressincronização) nas vacas que não emprenharam, ou usam touros de repasse.
Requisitos para bons resultados
A IATF não compensa falhas de manejo. Alguns pontos são decisivos:
- vacas com pelo menos 30 a 40 dias pós-parto;
- escore de condição corporal adequado (em geral 2,5 ou mais, numa escala de 1 a 5) e alimentação suficiente para que os animais não percam peso;
- programa sanitário em dia, com vacinações reprodutivas;
- curral e tronco de contenção em bom estado, além de equipe treinada e inseminador experiente;
- sêmen de boa qualidade, armazenado e descongelado corretamente;
- acompanhamento por médico veterinário, com diagnóstico de prenhez cerca de 30 dias após a inseminação.
Custo-benefício
À primeira vista, o custo com hormônios, sêmen e mão de obra parece alto. Mas o retorno costuma superar o investimento. Vacas que emprenham mais cedo produzem bezerros mais pesados na desmama, e o ganho genético se acumula ao longo das gerações. A IATF também é a base de outras biotecnologias, como a transferência de embriões e a produção in vitro de embriões.
Referências
- GONÇALVES, P. B. D.; FIGUEIREDO, J. R.; FREITAS, V. J. F. Biotécnicas aplicadas à reprodução animal. 2. ed. São Paulo: Roca, 2008.
- Neogen Genética. Artigo técnico sobre IATF (arquivado).
- Wikipédia. Inseminação artificial.
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/zootecnia/inseminacao-artificial-em-tempo-fixo/