Atentado ao Riocentro

Mestrado em História (UFJF, 2013)
Graduação em História (UFJF, 2010)

Em 1981 um grupo de militares da chamada “linha dura”, insatisfeitos com o processo de abertura política e de redemocratização pelo qual vinha passando o Brasil nos últimos anos, organizou um atentado que ficou conhecido como Atentado ao Riocentro. A investida de tais militares passou longe de se ter o efeito esperado e só serviu para intensificar a queda da ditadura militar no país.

Desde a eleição de João Batista Figueiredo no final da década de 1970, o Estado brasileiro já vinha tomando novos rumos em sentido à democracia. O presidente, que recebeu um país que sofria as conseqüências do fim do milagre econômico e das contestações da população em relação ao regime vigente no país, assumiu o cargo com o propósito de promover a estimada abertura política no Brasil. Nos últimos anos, as grandes marcas do regime autoritário militar, como, por exemplo, o bipartidarismo, já havia sido extinguidas. Todavia um grupo de militares mais radicais e conservadores estava plenamente insatisfeito com a redemocratização e queria de todas as formas impedir o avanço de tal processo. Esses militares formavam a chamada “linha dura”.

Uma das atitudes drásticas tomadas por esses militares da “linha dura” na tentativa de desacelerar o processo de abertura política foi um dos maiores atentados já praticados contra a população brasileira, o caso do Riocentro. No dia 30 de abril de 1981 ocorria no Riocentro um evento com shows de vários artistas da Música Popular Brasileira em comemoração ao Dia do Trabalhador, alguns militares da ala radical planejaram explodir bombas nos geradores de energia do evento almejando espalhar o pânico e a desordem entre o público. Entretanto uma das bombas explodiu antes da hora e resultou no fracasso de tais militares, causando a morte de um deles.

Segundo consta, algumas ocorrências estranhas antes mesmo do show já apontavam para a organização do atentado planejado pelos militares. Tudo indica que muitas pessoas, incluindo militares e civis, participaram da organização do atentado que começou a ser elaborado pelo menos um mês antes do evento no Riocentro. A Polícia Militar, que sempre realizava a cobertura dos eventos no Riocentro, estranhamente suspendeu o policiamento naquele dia argumentando que, por ser um evento de natureza privada, os próprios organizadores deveriam se incumbir da segurança no local.

Na noite do evento, dois militares, o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Dias Machado, usavam um automóvel Puma metálico no qual transportavam os artefatos explosivos que seriam utilizados no atentado. Ambos os militares eram integrantes do DOI do I Exército na cidade do Rio de Janeiro, sendo que o sargento Rosário era treinado em montagem de explosivos. Os militares pararam o carro no estacionamento do evento, onde provavelmente desenvolveram a montagem das bombas. O objetivo era explodi-las nos geradores de energia para acabar com os shows e espalhar o pânico entre os presentes. Contudo por volta das 21 horas, quando o Puma começava a sair da vaga onde tinha estacionado no Riocentro, provavelmente indo implantar as bombas, uma delas explodiu antes da hora e dentro do carro. A explosão inflou o teto e destruiu as portas do veículo, matando o sargento Rosário e ferindo gravemente o capitão Wilson Machado. Este, em atitude desesperada, se jogou para fora do carro clamando por ajuda e que o levassem para o hospital. Outra explosão ainda ocorreu de uma bomba que havia sido jogada na mini-estação elétrica que gerava a energia para o evento, mas, a bomba que havia sido jogada por cima do muro, explodiu no pátio e não interrompeu o evento.

O exército declarou que radicais de esquerda teriam sido os responsáveis pelo atentado contra o governo, mas tal justificativa já não tinha mais força naquele momento. Era sabido o envolvimento de militares da “linha dura” com medidas contra o processo de abertura política. Com o fracasso, a “linha dura” e o SNI (Serviço Nacional de Informações) realizaram um esforço conjunto para tentar encobrir o caso. Mesmo assim, um inquérito policial militar foi aberto sobre o caso, só que o fracasso nas investigações para provar a organização do atentado pela “linha dura” levou o ministro da Casa Civil Golbery de Couto e Silva a renunciar ao cargo e o caso foi arquivado.

O episódio serviu para acelerar a falência da ditadura militar no Brasil e possibilitar ainda mais a conquista da democracia quatro anos mais tarde.

Em 1999 o caso do Atentado ao Riocentro foi reaberto quando o general Octávio de Medeiros, ex-chefe do SNI, declarou saber do mesmo uma hora antes de acontecer, pois o general Newton Cruz, que já sabia do plano um mês antes, havia lhe contado. Com novas provas surgindo, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados solicitou a reabertura do caso, que foi aceito pela procuradora da República Gilda Berger considerando que o caso não se enquadrava na Lei da Anistia, a qual envolvia crimes apenas entre 1961 e 1979.

Passados três meses de investigação, o coronel Wilson Machado foi indiciado por homicídio qualificado, o general da reserva Newton Cruz foi indiciado por falso testemunho e desobediência, o sargento Guilherme do Rosário também seria condenado se estivesse vivo, assim como o coronel Freddie Perdigão, falecido em 1997, por ter-se descoberto que foi o organizador do atentado.

Após todas as punições, o caso foi arquivado novamente em 1999 pelo ministro Carlos Alberto Marques Soares alegando que o Estado já não tinha mais como punir os envolvidos e a sentença dada já era definitiva.

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