Atentado ao Riocentro

Mestre em Educação (UFMG, 2012)
Especialista em História e Culturas Políticas (UFMG, 2008)
Graduada em História (PUC-MG, 2007)

O atentado ao Riocentro foi uma das diversas manifestações da linha-dura no contexto da abertura política. Insatisfeitos com o processo de distensão, setores mais radicais do grupo promoveram diversos atos terroristas, dentre eles o atentado ao Riocentro, que não logrou êxito e revelou ao público a incoerência entre os militares sobre o retorno à democracia.

O 1º de Maio e os planos da extrema-direita para impedir a abertura política

Os militares tinham como alvo o show realizado em 30 de abril de 1981, às 21 horas, no centro de convenções do Riocentro. O espetáculo era dedicado ao Dia do Trabalho (1º de Maio) e contava com personalidades de esquerda, sendo organizado por Chico Buarque e Fernando Peixoto através do Centro Brasil Democrático.

Planejado para ocorrer um ano antes, o plano contava com quatro equipes. Ao todo, estavam envolvidos quinze militares distribuídos em seis carros. A primeira equipe foi justamente a que falhou e deveria instalar três bombas no pavilhão. A segunda equipe, responsável por explodir a estação de eletricidade, também falhou, pois a bomba errou o alvo e não possuía força suficiente para gerar o dano desejado. A terceira e a quarta equipe estavam fora do pavilhão e seriam responsáveis por forjar evidências de que militantes de esquerda teriam sido os responsáveis pelas explosões. Para isso, prenderiam inocentes aleatoriamente e pichariam muros da redondeza com a sigla da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), movimento já extinto naquele contexto. Também enviariam à jornais documentos reconhecendo a autoria do atentado ao "Comando Delta", organização fictícia criada pelos militares.

O atentado contou com a colaboração do coronel Nilton de Albuquerque Cerqueira que suspendeu o policiamento da região que cuidaria do trânsito e da segurança no entorno do Riocentro.

Tentativa atrapalhada

A intenção dos militares era fazer o atentado parecer uma ação de militantes de esquerda, entretanto uma das bombas explodiu antes da hora, levando a óbito o sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo o capitão Wilson Dias Machado. Os militares estavam em um carro Puma que ficou bastante danificado com a explosão, chegando a perder a porta direita. A bomba explodiu debaixo do banco do sargento, estraçalhando seu corpo em pedaços que chegaram a 30 metros de distância no estacionamento. O plano orquestrado Centro de Informações do Exército (CEI) e pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) tinha como objetivo alarmar a população, convencendo-os de que a abertura política deveria ser interrompida em favor de uma ofensiva contra a esquerda comunista.

A conivência das autoridades

Impossibilitados de impedir a chegada da imprensa ao local, os militares tiveram que reconhecer a identidades dos agentes que estavam no carro, mas não prestaram nenhum outro esclarecimento. Posteriormente, tentaram acusar militantes de esquerda de terem implantado a bomba sem que os agentes vissem.

O Presidente da República, João Figueiredo, apoiou a versão oficial e o inquérito foi arquivado sem que ninguém fosse incriminado pela explosão.

Em depoimento prestado em 1999, o chefe do SNI, Otávio Medeiros, declarou que o presidente Figueiredo e o chefe do gabinete Militar da Presidência, Danilo Venturini, foram avisados cerca de um mês de antecedência sobre o plano, informado pelo chefe da Agência Central do SNI, Newton Cruz, e nada fizeram para impedi-lo.

Bibliografia:

GOMBATA, Marsílea. Como deveria ser o ataque a bomba no Riocentro. Carta Capital, São Paulo, 20 fev. 2014. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-era-para-ser-o-ataque-do-riocentro-506.html>. Acesso em: 04 nov. 2017.

CASADO, José. Riocentro: documentos revelam que Figueiredo encobriu atentado. O Globo, Rio de Janeiro, 30 mar. 2014. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/riocentro-documentos-revelam-que-figueiredo-encobriu-atentado-12030727>. Acesso em: 04 nov. 2017.

SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar. In: Brasil: uma biografia. São Paulo: Cia das Letras, 2015, p. 467-498.

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