Quilombo

Graduada em História (Udesc, 2010)
Mestre em História (Udesc, 2013)

Os escravizados africanos da América Portuguesa (século XV-XIX) sofriam maus tratos nas mãos de seus senhores e viviam em péssimas condições. Porém eram antes de escravizados, humanos, e suas vontades foram demonstradas das mais variadas formas, pois ser escravo naquele período era sobretudo resistir. Da melancolia ao assassinato dos seus senhores, do controle da natalidade às fugas, essas formas de resistências pacíficas ou agressivas revelavam que os escravizados povoaram o seu cotidiano de táticas que visavam a sua sobrevivência. As fugas poderiam ser individuais ou em massa e deram origem aos mocambos ou quilombos.

O termo “mocambo” significa “esconderijo”, já o termo “quilombo” é originário da língua banto, kilombo, e significa povoação ou fortaleza. No continente africano, mais precisamente em Angola, os quilombos eram fortificações onde os guerreiros passavam por rituais de iniciação para o combate e a magia. Porém o termo no período Colonial significou muito mais que o sentindo dado pela língua africana, pois a palavra se generalizou com o conhecimento do Quilombo dos Palmares (1597-1694), significando um espaço de resistência, luta e liberdade para os africanos e afrodescendentes.

A formação dos quilombos no período se constitui para além do sentindo de refúgio improvisado dos ex-escravos. Os quilombos tornaram-se uma nova possibilidade de vivencia na ordem escravista, pois conciliavam dentro de um novo espaço político resistência e negociação, rejeição e convivência, sendo assim, perigoso aos olhos dos senhores. Os quilombos não eram lugares isolados da sociedade colonial, pois mantinham vínculos com os mais diversos setores tais como: relações comerciais; redes para obtenção de informações; laços afetivos e amorosos. Como podermos perceber os quilombos se situavam nas periferias urbanas e rurais estabelecendo contatos que garantiam a sua sobrevivência e manutenção de suas estruturas. Os principais alimentos cultivados pelas populações dos quilombos eram milho, mandioca, feijão, fumo, batata-doce, e mantinham também a criação de galinhas, graças às trocas com os que viviam no entorno. Havia também quilombos que atacavam cidades, fazendas e viajantes nas estradas, a fim de conseguir animais de corte entre outros proventos. A dinâmica de trocas estabelecida contava com vários personagens que tinham seus interesses, seja por lucro ou por lealdade. Entre eles figuravam os contrabandistas, que negociavam produtos; os escravos que permaneciam nas fazendas e passavam informações entre os quilombos; os mascates que vendiam pólvora, aguardente, sal, roupas e compravam aquilo que os quilombolas saqueavam. As forças armadas da colônia não deixavam essas ações impunemente, e os quilombos sofriam inúmeros ataques, como foi o caso da Guerra dos Palmares.

Em todo território houve a presença de quilombos, e cada um tem a sua própria história. O mais famoso deles era o de Palmares. Este quilombo foi formado por escravizados de uma fazenda de açúcar em Pernambuco, que subiram a serra da Barriga, já no estado atual de Alagoas, por volta de 1597. Seu nome vem das palmeiras abundantes na região, que usavam para construir suas casas e extrair o palmito. Os primeiros habitantes eram provenientes das regiões onde hoje ficam Angola e Congo, porém ao longo dos anos formaram uma nação multiétnica que contava com indígenas e europeus. No auge Palmares chegou a abrigar 20 mil habitantes, fato que chamou a atenção das autoridades coloniais que submeteu a vários ataques, gerando a Guerra dos Palmares, que foi liderada por Zumbi dos Palmares contra as autoridades coloniais até 1694 quando foram derrotados após resistir a 42 dias de sítio. Os quilombos são símbolos até hoje nas lutas por inclusão social dos negros no Brasil, pois mostra que os africanos foram vítimas de um sistema escravista mas não se acomodaram ao regime imposto, pelo contrário, lutaram por sua liberdade.

Referência bibliográfica:

SCHWARCZ, Lilia & STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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