Paranomásia

Por Paula Perin dos Santos
Leia a frase a seguir:

“O diretor ratificou que ele mesmo fizera as retificações no documento”.

Observe que, na sentença acima, há o emprego de duas palavras parecidas, e pouco utilizadas no português falado, o que às vezes até compromete o sentido da oração.

Os vocábulos ratificar (= confirmar) e retificar (=corrigir) são classificados como parônimos pela gramática tradicional, pois possuem semelhança na pronúncia e na escrita, mas possuem significados totalmente diferentes.

Quando numa mesma sentença temos o emprego de palavras parônimas, ou seja, palavras de sons parecidos, dizemos que ocorreu aí a paranomásia, figura de linguagem que consiste no emprego de palavras parecidas, numa mesma sentença, gerando uma espécie de trocadilho.

O desconhecimento do sentido real destas palavras compromete efetivamente na não-compreensão do que está sendo dito pelo locutor.

Observe neste poema de Manuel Bandeira:

Neologismo

“Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teodora”.

Neste contexto, o poeta faz um trocadilho entre a junção do pronome oblíquo “te” + o verbo “adorar”, formando o neologismo “teadorar” e o nome da pessoa amada, “Teodora”. No último verso, “Teadoro, Teodora”, percebemos que nesse trocadilho temos o emprego da paranomásia. Os sons são parecidos, mas quanto ao sentido, esses são diferentes.

Veja outros exemplos onde ocorre a paranomásia:

"Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias" (Padre Antonio Vieira)

premissas=        antecedentes

primícias= primeiros frutos (simbolicamente, algo muito bom)

“O homem fardado tentava a todo custo explicar à mulher que ela estava infringindo a lei. Como não lhe dera ouvidos, levou-a ao xadrez, infligindo-a as mais duras provações, desde engraxar suas botas até lavar os banheiros dos detentos.”

Infringir= desrespeitar, cometer infração.

Infligir= submeter, aplicar castigo.

REFERÊNCIAS:

NICOLA, José de. Lingua, Literatura e Redação. 5ed. São Paulo, Scipione, 1995, p.119.

SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15 ed. São Paulo, Ática, p. 123.