Messianismo

Por Ana Lucia Santana
O Messianismo implica na vinda ou no retorno de um ser divino enviado por uma Divindade, que virá libertar a Humanidade. O termo ‘messias’ vem do hebraico mashiah e do grego christós. Ele é uma entidade com poderes e tarefas que deve mobilizar a favor de um grupo ou de um povo subjugado. Em um sentido mais amplo, usa-se também esta expressão referindo-se a alguém investido de uma missão sagrada, nem sempre com a conotação devida.

Observa-se ao longo da história e na literatura universal a presença constante de um certo messianismo, como no Sebastianismo em Portugal, com ecos no Brasil, que influenciou movimentos como o de Canudos e do Contestado, o Ciclo do Rei Artur na Bretanha e de uma forma menos evidente na “Mensagem”, de Fernando Pessoa. Fenômenos como a revolta sertaneja liderada por Antonio Conselheiro em Canudos, com aspectos claramente messiânicos, ocorrem em momentos de crise política, quando o povo fica a mercê de suas próprias crenças e esperanças. Então emerge o arquétipo do ‘messias’, o aguardado salvador, que vem socorrer o Homem justamente nos períodos de desespero e dor, quando o mundo, ou pelo menos o micro-universo de um povo é abalado de tal forma que parece se aproximar do Juízo Final. Este Messias vem derrotar as forças do Mal, e traz consigo a Perfeição e o Paraíso na Terra. Ele pode ser um líder religioso, político e social, se estiver impregnado das características necessárias, tais como poderes mágicos, carisma e uma autoridade natural.

Weber refere-se ao carisma como um “dom da graça”, aproximando-se assim de uma definição cristã. Segundo ele, os carismáticos são os que possuem características sobrenaturais – um líder, um orador, um comandante com poderes que transcendem os dos mortais comuns, e que assim reúnem à sua volta amplas camadas de seguidores. Alguns exemplos destes líderes: Profetas da Bíblia, Maomé, Lênin, Gandhi, Stalin, Mussolini, Antônio Conselheiro e outros. Como se percebe, não são utilizados aqui critérios éticos ou morais.

O conceito de um Messias foi mencionado a primeira vez pelo profeta Isaías, embora entre os discípulos de Zoroastro, na Pérsia, já se encontrasse esta idéia. Passagens do Apocalipse também narram a volta de Jesus, que vem resgatar seu povo oprimido, na forma de um guerreiro acompanhado de uma legião de santos. No Brasil, o messianismo está presente nos Movimentos de Canudos e do Contestado. Este ocorreu em 1912, entre Santa Catarina e Paraná, com a liderança de monges que defendiam o retorno do Império. Assim como em Canudos, este movimento também foi abortado, com a comunidade arrasada pelo exército brasileiro em 1916. Estas mobilizações sócio-espirituais também estão marcadas pelo Sebastianismo – movimento que surgiu com a morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578; sem herdeiros, o trono vai para o rei Filipe II, da linhagem espanhola. Este messianismo português advém do inconformismo do povo luso com o contexto político de Portugal, sob o jugo de forças estrangeiras, que assim acredita no retorno do rei como solução para seus problemas.

Quando se forma em torno do novo eleito um grupo de seguidores, estes passam a considerar os responsáveis pelo poder como o Anticristo que os perseguirá implacavelmente. Então eles encontram um refúgio e se preparam para lutar contra o Mal. Estas são as principais características do Messianismo. Ele está presente em todas as épocas, mas é preciso haver uma sintonia com o contexto de um povo ou de uma comunidade para que a mensagem messiânica ecoe e se transforme efetivamente em um movimento organizado.