Matriarcado

Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio, 2015)
Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 2012)

O termo matriarcado designa sociedades que foram social, econômica, política e culturalmente criadas por mulheres. Essas sociedades não são espelhos das sociedades patriarcais, invertendo o gênero dominante. São igualitárias no que se refere ao gênero, mesmo quando as mulheres estão na liderança.

O conceito de matriarcado teve diferentes significados ao longo da história e ainda hoje é alvo de permanente discussão. Um dos estudos pioneiros sobre matriarcado é de Johan Jakob Bachofen, de 1861, intitulado “O matriarcado: uma investigação sobre a gineocracia no mundo antigo”. Seu trabalho atribuía a este termo o significado jurídico de herança matrilinear. Mais tarde o etnólogo Lewis Henry Morgan publicou “A sociedade primitiva”, em 1891, em que buscava compreender a existência ou não do matriarcado. Outro autor que se debruçou sobre o assunto foi Friedrich Engels, em sua obra "Origem da família, da propriedade privada e do estado", de 1884. Para ele o controle da propriedade privada permitiu a substituição do matriarcado pelo patriarcado nas sociedades primitivas.

Considerações importantes sobre o matriarcado também foram feitas pelo antropológo Bronislaw Malinowski. Na pesquisa que fez junto aos tobriandeses, ele afirma que as mulheres possuem um papel importante na vida da comunidade, liderando-a em muitas áreas. Outra importante descoberta deste autor foi que o parentesco era matrilinear, não importanto quem era o pai biológico.

Muitos estudos seguiram-se a estes e nem sempre o foco principal foi a análise do termo ou de sociedades assim caracterizadas. Desde a década de 1970, aproximadamente, mulheres e indígenas vêm buscando apresentar uma visão multidisciplinar sobre o assunto, combinando campos como antropologia, sociologia, história, filosofia e linguística.

Um dos grupos mais respeitados no assunto atualmente é o grupo de estudos internacional chamado “Modern Matriarchal Studies” (Estudos Matriarcais Modernos em tradução livre). A principal pesquisadora deste grupo é a alemã Heide Göttner-Abendroth, que se dedica a estudar sociedades matriarcais em todo mundo em diferentes períodos da história.

A partir dos estudos desse grupo o conceito de matriarcado recebeu um novo significado, que não busca sociedades construídas através do poder feminino. A palavra grega “arché”, que compõe a etimologia das palavras patriarcado e matriarcado, possui dois significados: dominação e início. Os estudiosos do patriarcado preferem o uso do significado dominação, e esta talvez seja a causa de desacreditarem da possibilidade de sociedades matriarcais, porque buscavam sociedades lideradas por mulheres, como base no poder de dominação. Os estudos recentes sobre matriarcado utilizam o segundo significado, traduzindo a palavra como “as mães do começo”.

Este significado permite pensar nas mulheres como mães no sentido biológico e como mães no sentido cultural, enquanto criadoras do início, do começo. Por esta virtude, de dar a luz, de fazer nascer, as mulheres são detentoras de um poder que é superior ao poder de dominação, caracteristico do patriarcado, o poder da criação.

Os estudos sobre matriarcado são importantes, especialmente nos dias atuais, por criarem um contraponto crítico ao pensamento patriarcal. Além disso, eles buscam reconhecer particularidades das sociedades matriarcais, buscando perceber as mulheres enquanto sujeitos de ação na história e na sociedade, os símbolos de maternidade e os valores em que essas sociedades se estruturam economica, social e culturalmente.

Referências bibliográficas:

Goettner-Abendroth, Heide. Matriarchal societies: studies on indigenous cultures across the globe. New York, Peter Lang, 2012.

Arquivado em: Sociedade, Sociologia