Cuíca-d'água

Mestre em Zoologia (UESC, 2013)
Graduado em Ciências Biológicas (UEG, 2010)

Um animalzinho bem peculiar, a cuíca-d’água é um marsupial, ou seja, seus filhotes não se desenvolvem completamente no interior da mãe. Eles terminam seu desenvolvimento na parte externa do corpo da mãe. Assim que nascem, os filhotes escalam a mãe até chegar nas suas mamas, onde se fixam e ficam até que seu desenvolvimento atinja um estado mais avançado.

As cuícas são animais pequenos, e como o próprio nome diz, habitam áreas próximas a cursos d’água. Chironectes, significa “mão de nadador” (Chir=mão; nectes= ­­­nadador) e minimus quer dizer “muito pequeno”, logo seria um “animal pequeno com mão de nadador”. Apesar de não ser um marsupial pequeno (quando comparado a outros marsupiais brasileiros), quando as primeiras cuícas d’água foram descobertas, por serem animais com corpo fusiforme (mais largo no centro e mais estreito nas extremidades), estar sempre próximo da água (inclusive um excelente nadador) e apresentar membranas interdigitais, elas foram comparadas às lontras, que são animais bem maiores, daí o epíteto minimus porque ela seria “como uma lontra”, mas muito pequena. A “mão de nadador” veio através das membranas interdigitais (entre os dedos) que possui, facilitando a sua atividade natatória.

Os hábitos aquáticos fazem com que boa parte da alimentação da cuíca venha da água, como mostra a ilustração acima. Crédito: Brehms Tierleben, Small Edition, 1927.

A cuíca-d’água é o único marsupial com hábitos semi-aquáticos (que utilizam tanto água quanto terra para suas atividades), logo, é completamente adaptada para esse meio de vida, pois além das membranas interdigitais, sua pelagem (densa, fina e curta) é impermeável. Dentre os marsupiais brasileiros, pode ser considerada de grande porte, visto que sua massa corporal pode chegar até a cerca de 800 g e seu comprimento pode ultrapassar 80 cm, considerando da ponta do focinho à ponta da cauda. A coloração da sua pelagem é bastante peculiar, começando pela face que é bem escura, à exceção de uma faixa mais clara sobre os olhos. O corpo é acinzentado com grandes manchas escuras dispostas de forma perpendicular à linha dorsal, que também é escura. A cauda em sua porção proximal (mais próxima do corpo) é escura, ao passo que a porção distal (mais afastada do corpo) é branca.

É um animal de hábitos noturnos, descansando durante o dia, geralmente em pequenos ninhos feitos de folhas. É um excelente nadador, e, apesar de ser um animal pequeno, pode ter uma área de vida de tamanho considerável, com registros de indivíduos se deslocando por até mais de 3 km de distância. Durante a natação, a cabeça e as orelhas ficam foras d’água e o restante do corpo submerso, exceto quando dá pequenos mergulhos, nesses casos todo o corpo se mantém embaixo d’água. As fêmeas podem parir de dois à três filhotes e esses acompanham a mãe o tempo todo nos primeiros estágios da vida, inclusive quando ela vai nadar. Nesses momentos a mãe mantém os filhotes bem protegidos no seu marsúpio, que também é à prova d’água. A cuíca d´água prefere cursos d´água localizados no interior de áreas florestadas.

Por ser uma animal semi-aquático, o ambiente aquático provém boa parte dos seus recursos alimentares, como pequenos peixes, crustáceos, outros tipos de invertebrados aquáticos inclusive plantas aquáticas e frutos. Inclusive há relatos de cuícas predando até morcegos.

Como acontece com praticamente todas as espécies, a destruição dos seus habitats gera um declínio nas suas populações, afinal de contas, sem casa para morar não há como viver. Por ser um animal que depende de condições bem específicas (ambientes florestados com cursos d´água isolados) a cuíca d’água é sensível a degradação ambiental, pois ela não possui uma plasticidade tão grande para sobreviver em qualquer local. A poluição de cursos d’água por produtos tóxicos pode afetar diretamente (envenenando ou intoxicando) ou indiretamente (acabando com os recursos vitais) a cuíca d’água.

Referências

Reis, N.R.; Peracchi, A.L.; Pedro, W.A.; Lima, I.P. 2011. Mamíferos do Brasil. 2.ed. Londrina: Nélio R. dos Reis. 439p.

Gardner et al. 2007. - Mammals of South America, Volume 1: marsupials, xenarthrans, shrews, and bat. University of Chicago Press, Chicago.

Paglia, A. P., G. A. B. Fonseca, A. B. Rylands, G. Herrmann, L. M. S. Aguiar, A. G. Chiarello, Y. L. R. Leite, L. P. Costa, S. Siciliano, M. C. M. Kierulff, S. L. Mendes, V. C. Tavares, R. A. Mittermeier & J. L. Patton. 2012. Lista anotada dos mamíferos do Brasil. 2ª edição. Occasional Papers in Conservation Biology 6: 1–76.

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