Antônio Raposo Tavares

Mestre em História Comparada (UFRJ, 2020)
Bacharel em História (UFRJ, 2018)

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Antônio Raposo Tavares (1598-1659) foi um bandeirante paulista, organizador de diversas bandeiras de apresamento indígena e de combate às reduções jesuíticas. Nasceu em Beja de São Miguel, em Portugal, e veio ao Brasil com seu pai Fernão Vieira Tavares (governador da capitania de São Vicente), em 1618. Em 1622, fixou-se na vila de São Paulo e aos 24 anos casou-se com Beatriz Furtado de Mendonça, filha do também bandeirante Manuel Pires.

Sua biografia, assim como a de outros bandeirantes, foi escrita por Alfredo d'Escragnolle Taunay (1843-1899), também conhecido como Visconde de Taunay que, entre outras funções como engenheiro e militar, era um escritor ligado ao IHGB instituto fundado com o objetivo de construir uma história para a jovem nação.

Isto é importante para compreender porque a figura de Raposo Tavares foi epicamente atrelada ao desbravamento e alargamento dos territórios coloniais, bem como à busca por metais preciosos. Todavia, as fontes dão conta de que Raposo Tavares participou exclusivamente do apresamento e escravização de indígenas. Há historiadores que relacionam seu nome ao despovoamento e ao desaparecimento de etnias indígenas inteiras.

As bandeiras de Raposo Tavares

Em 1628, Raposo Tavares participou de sua primeira bandeira, atuando como imediato de Manuel Preto. Tal expedição rumou para a Província do Guairá, situada na parte oeste do atual Estado do Paraná. Raposo Tavares estabeleceu um arraial às margens do rio Tibagi e a partir desta base, os paulistas começaram a invadir as aldeias guaranis e as reduções jesuíticas, a fim de fazer indígenas cativos.

Em 30 de janeiro de 1629, foi iniciada a invasão ao Guairá, onde os superiores inacianos retiraram-se e poucos indígenas escaparam do jugo paulista. Neste mesmo ano, somente duas das treze reduções jesuíticas sobreviveram à destruição: Nossa Senhora do Loreto e San Ignácio Mini.

Nos anos seguintes, os bandeirantes invadiram o território ao sul do rio Paranapanema, do qual não escaparam mesmo as vilas espanholas de Cidade-Real e Villa-Rica, que tiveram que ser evacuadas por seus moradores em 1630.

A impiedade, a brutalidade e a bestialidade dos bandeirantes liderados por Raposo Tavares chocaram os missionários, que escreveram em crônicas sobre como estes bandos operavam: "entram, matam, queimam e assolam [...] e houve casos em que se queimaram povoações inteiras só para terror e espanto dos que ficavam vizinhos.

Em janeiro de 1633, foi eleito juiz ordinário e, logo depois, assumiu o cargo de ouvidor da Capitania de São Vicente, indicado pelo Conde de Monsanto. No mesmo ano, chefiou o assalto ao colégio dos jesuítas, no povoamento de Barueri, expulsando os padres, fato que o levou a ser excomungado pela Igreja.

Em janeiro de 1635 partiu para uma nova expedição para a serra dos Tapes, compreendida atualmente como a região central do Estado do Rio Grande do Sul. Nesta localidade encontrava-se várias etnias indígenas como charruas, tapés, araxans, guananás, carijós, caaguás, entre outros. Em dezembro atacou a redução de Jesus Maria e prosseguiu assolando as reduções de São Christovam e Sant’Anna. Raposo Tavares retornou à São Paulo em 1638, com 40 anos e com enorme notoriedade.

Entre os anos de 1639 e 1642, integrou as forças que combateram a invasão dos holandeses à Bahia. Posteriormente, também se dirigiu a Pernambuco para combatê-los.

Antônio Raposo Tavares, escultura em mármore de Luigi Brizzolara (1868-1937). A pose de visionário em roupas pomposas contrasta com a realidade dos bandeirantes. Acervo do Museu Paulista. Foto: Rodrigo Tetsuo Argenton / Wikimedia Commons / CC-BY-SA 4.0

A maior e última bandeira

Em 1648, começou seu grande périplo pela América do Sul. Saiu de São Paulo e seguindo rotas desconhecidas chegou ao Paraná, em 1649. No norte paraguaio, assolou várias aldeias de índios catequizados pelos jesuítas espanhóis, que concentravam-se no planalto da serra do Maracajú, chamadas de Cruz de Bolanos, Xeres, Itutin e Nossa Senhora da Fé.

De lá seguiu para a Bolívia e para o Peru, “lavando as mãos nas águas do oceano pacífico”. Por fim, a expedição chegou à foz do rio Amazonas, em Gurupá, no Pará, reduzida a 59 brancos e alguns indígenas. Depois de mais de 10 mil quilômetros e ao longo de três anos, este grupo navegou o curso de vários rios sul-americanos, tais como o rio Grande, rio Paraguai, rio Mamoré, rio Madeira e rio Amazonas.

Retornou a São Paulo tão desfigurado que a sua própria família não o reconheceu. A maioria dos historiadores supõem que ele morreu em 1568, aos 60 anos, em sua fazenda localizada em Quitaúna, atualmente um bairro da cidade de Osasco (SP).

Referências:

CARVALHO, Franco. Bandeiras e bandeirantes de São Paulo. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1940.

MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

TAUNAY, A. História geral das bandeiras paulistas. São Paulo, H. L. Canton, 1924-50.

VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial (1500-1800). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.