O Primeiro Comando da Capital (PCC) é uma organização criminosa surgida em 1993 dentro do sistema prisional de São Paulo. Criada inicialmente como um grupo de presos que dizia defender os detentos contra maus-tratos, a facção se expandiu para fora das prisões e passou a atuar no tráfico de drogas e de armas, em roubos e em esquemas de lavagem de dinheiro. Autoridades e pesquisadores a consideram a maior facção criminosa do Brasil, com presença em todos os estados e em outros países.
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Origem
O PCC foi fundado em 31 de agosto de 1993 na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no interior de São Paulo, unidade conhecida pelo regime rigoroso. A criação ocorreu menos de um ano depois do massacre do Carandiru, em outubro de 1992, quando 111 presos foram mortos durante a intervenção da Polícia Militar na Casa de Detenção de São Paulo. O episódio passou a ser usado no discurso da facção para justificar sua existência.
Nos primeiros anos, o grupo cresceu de forma pouco visível. O Estado paulista só reconheceu publicamente sua existência no início dos anos 2000. Em fevereiro de 2001, uma rebelião coordenada envolveu dezenas de unidades prisionais ao mesmo tempo e revelou a capacidade de organização da facção.
Estrutura e funcionamento
Estudos acadêmicos sobre o tema, como os da socióloga Camila Nunes Dias, descrevem o PCC como uma organização que impõe regras de conduta aos presos, com um estatuto próprio, contribuições financeiras obrigatórias de integrantes e instâncias internas para resolver conflitos e punir quem descumpre as normas. Essa estrutura costuma ser descrita por meio de setores chamados de "sintonias", responsáveis por diferentes áreas, como finanças e o controle das prisões.
Segundo esses estudos, a hegemonia da facção nas prisões paulistas alterou a dinâmica da violência no sistema prisional e nas periferias, já que conflitos passaram a ser mediados pelo próprio grupo. Pesquisadores ressaltam que esse controle se baseia na coerção e na ameaça, e não substitui o papel do Estado; o tema é discutido também em a polícia, a legislação e o poder paralelo.
Os ataques de 2006
Em maio de 2006, depois da transferência de lideranças para presídios mais rigorosos, ocorreram rebeliões em presídios e uma onda de ataques contra policiais, agentes penitenciários e prédios públicos em São Paulo, atribuídos ao PCC. Nos dias seguintes, ações policiais e de grupos armados resultaram em grande número de mortes, inclusive de civis sem relação com a facção. O episódio é um dos mais graves da história recente da segurança pública no país.
Expansão e atuação econômica
A partir dos anos 2000, o PCC se expandiu para outros estados e para países vizinhos, especialmente Paraguai e Bolívia, ligados às rotas de produção e transporte de cocaína. Investigações apontam o uso de portos brasileiros para enviar drogas à Europa e à África, o que levou autoridades a comparar a facção a organizações mafiosas internacionais.
Nos últimos anos, as investigações passaram a mirar a infiltração da facção na economia formal. Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto, conduzida pela Receita Federal, pelo Ministério Público de São Paulo e por outros órgãos, apontou um esquema de sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis atribuído ao PCC, com uso de postos, fundos de investimento e fintechs para ocultar patrimônio. O governo federal classificou a ação como uma das maiores respostas do Estado ao crime organizado.
Resposta do Estado
Entre as principais estratégias do poder público estão o isolamento de lideranças, o bloqueio de bens e a cooperação entre polícias, Ministérios Públicos e órgãos de fiscalização financeira. Em fevereiro de 2019, a pedido do promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, 22 integrantes da cúpula do PCC foram transferidos para presídios federais de segurança máxima. Entre eles estava Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como principal líder da facção. A medida foi adotada após a identificação de um plano para resgatar os líderes da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.
No plano federal, a coordenação dessas ações envolve o Ministério da Justiça e a Polícia Federal. Segundo o g1, em reportagem de 28 de outubro de 2026, Gakiya, que investiga a facção há cerca de duas décadas e vive sob escolta, está entre os nomes cotados para comandar um eventual Ministério da Segurança Pública no governo Lula. Não houve convite formal, e a criação da pasta depende da aprovação da PEC da Segurança Pública pelo Congresso.
Referências
- Promotor Lincoln Gakiya, conhecido por repressão ao PCC, é cotado para Ministério da Segurança de Lula – g1, 28/10/2026
- Quem é Lincoln Gakiya, promotor cotado para ministério de Lula – g1, 29/10/2026
- DIAS, Camila Nunes. Estado e PCC em meio às tramas do poder arbitrário nas prisões. Tempo Social (SciELO)
- DIAS, Camila Nunes; SALLA, Fernando. Violência e negociação na construção da ordem nas prisões: a experiência paulista. Sociedade e Estado (SciELO)
- Operação Carbono Oculto – Receita Federal, 28/08/2025
- "Maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história", diz Lula – Planalto, 08/2025
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/direito/primeiro-comando-da-capital-pcc/