Avaliação do ciclo de vida

Mestre em Ecologia e Recursos Naturais (UFSCAR, 2019)
Bacharel em Ciências Biológicas (UNIFESP, 2015)

A avaliação do ciclo de vida é um processo metodológico de gestão com etapas pré-definidas que permite ponderar qual o impacto ambiental causado pela produção, comercialização e uso de um bem de consumo, processo ou serviço. Desde o início dos movimentos ambientalistas dos anos 1970 e 1980, que levaram ao estabelecimento do conceito de responsabilidade socioambiental e sustentabilidade no setor corporativo, as avaliações de ciclo de vida se tornaram ferramentas essenciais.

Ao comprarmos um livro, por exemplo, não nos damos conta de todo o caminho necessário para a produção dele. Desde a extração das fibras de celulose de restos vegetais (que neste caso seria a matéria-prima), sua transformação em papel e a posterior impressão (a etapa de processamento) até a sua chegada na prateleira da livraria (a fase de distribuição). Cada produto possui um ciclo de vida que o gera e que também inclui o seu uso e eventual descarte por cada um de nós. Todos os produtos e serviços que consumimos devem ter seu ciclo de vida analisado de modo que todas as etapas de manufatura sejam ambientalmente eficientes, reduzindo o consumo de energia e matéria-prima, além de minimizar a geração de resíduos.

Como se pode imaginar, este processo não é algo simples de ser feito. A metodologia desenvolvida através da expertise de áreas de engenharia permite racionalizar cada fase do processo de manufatura, estruturando a avaliação do ciclo de vida de maneira mais clara e objetiva. Primeiramente é necessário listar todos os pontos de entrada (energia e elementos físicos usados na produção) e de saída (resíduos e produto final) ao longo do ciclo de vida. Depois, listar o risco ambiental potencial de cada um desses pontos, gerando um relatório que permitirá remover ou alterar etapas problemáticas do processo que inviabilizam a produção sustentável de um bem de consumo.

Exemplo: Avaliação do ciclo de vida de uma garrafa de refrigerante

  1. Pré-produção e manufatura:
    • Materiais necessários para preparar o refrigerante e a garrafa, bem como tanques de armazenagem e maquinários diversos.
    • Processos necessários para filtragem e tratamento da água, bombeamento dos ingredientes, empacotamento e etiquetagem das garrafas.
  2. Distribuição
    • Sistema de controle de qualidade e transporte do produto.
  3. Pós-consumo
    • Venda, uso, descarte e reciclagem.

Com as etapas bem definidas, podemos imaginar quais os principais problemas ambientais relacionados a cada uma delas. Na etapa 1, o uso de plástico requer o consumo de derivados de petróleo e energia para modelagem. Toda a linha de montagem consome energia e gera resíduos quando esteiras e tanques de armazenamento precisam ser higienizados. Na fase 2, de distribuição, o principal resíduo é a emissão de gases do efeito estufa por parte dos caminhões de distribuição. No estágio 3, podemos destacar o descarte indevido da garrafa vazia como o maior problema ambiental (agravado pelo longo tempo de decomposição do plástico na natureza).

Baseado nas informações coletadas por esta analise extremamente simplificada do ciclo de vida de uma garrafa de refrigerante, podemos sugerir diversas ações para reduzir seu impacto ambiental. Na fase 1, utilizar água de reuso (como chuva ou excedente da produção) para a lavagem das instalações pode ser uma boa ideia, desde que haja um sistema conectando a indústria com estações de tratamento de água, antes que esta seja lançada em rios e lagos. Para reduzir o consumo de derivados de petróleo, o plástico pode conter em sua estrutura uma porcentagem de material de origem vegetal que não afete sua integridade (ou seja, unir celulose na fabricação da garrafa, ainda a mantendo rígida sem afetar o sabor do refrigerante). Esta medida, aliás, também afeta a fase 3, pois este eco plástico se degrada com mais facilidade no meio ambiente.

Na etapa 2, precisamos pensar na logística de distribuição, evitando o envio da garrafa de refrigerante para locais muito distantes. O consumo de produtos manufaturados localmente reduz as emissões de poluentes advindas do transporte. Utilizar centros de estocagem e distribuição que cheguem a locais mais distantes e estimular o uso de biocombustíveis também auxiliam a amenizar os impactos desta fase.

Por fim, utilizar parte dos lucros das vendas em campanhas de conscientização da população para a importância do descarte consciente e financiar cooperativas de reciclagem são medidas importantes para amenizar os problemas detectados na fase 3. Todas essas observações e melhorias só foram possíveis graças à avaliação do ciclo de vida deste produto, tornando sua produção, consumo e destino ecologicamente melhores.

Referências:

de Almeida Campos, R.V., de Campos, S.P. and Barros, A., SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL NA AMBEV.

Finnveden, G., Hauschild, M.Z., Ekvall, T., Guinée, J., Heijungs, R., Hellweg, S., Koehler, A., Pennington, D. and Suh, S., 2009. Recent developments in life cycle assessment. Journal of environmental management91(1), pp.1-21.

Guinee, J.B., Heijungs, R., Huppes, G., Zamagni, A., Masoni, P., Buonamici, R., Ekvall, T. and Rydberg, T., 2011. Life cycle assessment: past, present, and future.

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