Filosofia clínica

Doutorado em andamento em Filosofia (UERJ, 2018)
Mestre em Filosofia (UERJ, 2017)
Graduado em Filosofia (UERJ, 2015)

A filosofia clínica é o uso do pensamento filosófico com fins terapêuticos. Diferentemente de psicólogos, psicanalistas ou psiquiatras, os adeptos da filosofia clínica afirmam que sua prática não se baseia na compreensão do contexto de vida de uma pessoa ou de sua relação com familiares, mas, antes, baseia-se na organização ou estruturação de pensamento do paciente a fim de ajuda-lo com seus problemas interiores. No Brasil, a filosofia clínica foi inaugurada pelo filósofo e psicólogo Lúcio Packter na cidade de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul.

Apesar de Lúcio Packter ter criado sua própria sistematização da filosofia clínica no Brasil, pode-se encontrar fora do país filósofos como o canadense Lou Marinoff. Sendo o fundador do movimento de aconselhamento filosófico, seu livro mais famoso, Mais Platão, menos Prozac, busca abordar diversas questões cotidianas a fim de produzir uma filosofia prática, de uso para o dia-a-dia e que possa ajudar as pessoas a lidar com suas questões e dificuldades existenciais. É possível traçar também as origens da filosofia clínica até o filósofo alemão Gerd. B. Achenbach, fundador da prática filosófica (Philosophische práxis, em alemão), em 1981. Achenbach afirmava que a filosofia só pode ser realmente compreendida através de sua prática e de uma experiência empática. Afirma-se que a filosofia prática tal como desenvolvida por ele é fundamentada na filosofia epicurista e em sua concepção de filosofia como “terapia da alma”.

De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação em Filosofia Clínica, documento publicado pela Associação Nacional de Filósofos Clínicos e Teóricos em Filosofia Clínica (ANFIC), a terapêutica da filosofia clínica pode ser aplicada apenas por filósofos reconhecidamente formados, ou seja, que possuam graduação em filosofia em qualquer instituição de ensino superior que possua reconhecimento do Ministério da Educação (MEC). Esse documento também define a filosofia clínica como um princípio metodológico que visa conjugar ciência e vida, academia (quer dizer, o ambiente acadêmico e o conhecimento produzido por ele) e cotidiano, conhecimento e comportamento. Isto significa dizer que esta terapêutica trabalha na fronteira entre a história da filosofia, a antropologia filosófica e a filosofia cognitiva e pretende conjugar estas diferentes áreas do conhecimento filosófico para conjugar uma prática que priorize a experiência existencial particular de cada indivíduo.

Por ser conduzida com base no indivíduo e em seus sistemas de pensamento, a filosofia clínica não utiliza de maneira absoluta os conceitos de certo e e errado, tendo em vista que estes conceitos são determinados de acordo com a própria experiência de cada indivíduo. A base filosófica para esta prática Lúcio Packter, em seu livro Filosofia clínica – Propedêutica, encontra na filosofia desenvolvida pelo sofista grego Protágoras, cujo pensamento mais famoso afirma que “o homem é a medida de todas as coisas”. Com este pensamento, em associação com o de outros filósofos posteriores, como Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, Packter entende que cada pessoa experimenta, por exemplo, um sabor, um aroma, um sentimento, de maneira singular, que outros não compartilham necessariamente. Desse modo, ele entende que cada pessoa é a medida de todas as coisas, entendendo que somente cada pessoa pode saber como se sente, não cabendo a ela a medida estabelecida por outros.

A filosofia clínica começou no Brasil sob polêmicas. Psicólogos e psicanalistas a veem com suspeita, julgando que, sem a orientação adequada, podem causar danos em seus pacientes. Contudo, profissionais e mesmo alguns pacientes desse relativamente novo modelo terapêutico afirmam que seu modo singular de tratamento, bem como o tempo que este tratamento dura (entre 6 e 8 meses), é inovador por seu caráter prático, onde a especulação tem pouco espaço, e que pode oferecer verdadeira solução para as angústias humanas.

Referências:

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE FILÓSOFOS CLÍNICOS. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação em Filosofia Clínica. Disponível em: https://www.anfic.com.br/documentos/diretrizes-curriculares-nacionais-para-a-formação-em-filosofia-clinica/. Acesso em: 31 de jan. 2020.

FOLHA DE LONDRINA. No consultório do filósofo. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/no-consultorio-do-filosofo-697-37.html. Acesso em: 31 de jan. 2020.

INSTITUTO PACKTER. Frases e pensamentos de especialistas em filosofia clínica. Disponível em: www.institutopackter.com.br/frases_de_filósofos_clínicos.html. Acesso em: 31 de jan. 2020.

PACKTER, LÚCIO. Filosofia clínica – Propedêutica. Disponível em: https://www.anfic.com.br/wp-content/uploads/2018/12/Filosofia_Clinica-Propedeutica.pdf. Acesso em: 01 de fev. 2020.

WIKIPEDIA. Filosofia clínica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_clínica. Acesso em: 31 de jan. 2020.

WIKIPEDIA. Gerd B. Achenbach. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Gerd_B._Achenbach. Acesso em: 01 de fev. 2020.

WIKIPEDIA. Lou Marinoff. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lou_Marinoff. Acesso em: 31 de jan. 2020.

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