Conflitos étnicos

Mestrado em Sociologia Política (UFSC, 2014)
Graduação em Ciências Sociais (UFSC, 2011)

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São chamados de conflitos étnicos os embates entre dois ou mais grupos de etnias diferentes, isto é, entre povos distintos. Como é comum a esses conflitos, suas origens e motivos podem ser os mais diversos, passando por questões políticas, econômicas, religiosas ou de outros recortes. No entanto, o que define um conflito como étnico é que, nesse tipo de disputa, o que é posto como eixo do embate são as divergentes afirmações das posições e do status de seus respectivos grupos étnicos perante a sociedade em questão.

Do ponto de vista da análise teórica, os conflitos étnicos costumam ser explicados nos termos de três perspectivas gerais (ainda que existam inúmeras outras abordagens): a escola primordialista, instrumentalista e a construtivista. Para os primordialistas, a explicação dos conflitos étnicos se dá pelo fato de que existem laços profundos e essenciais de ligação entre os indivíduos de uma comunidade, sobretudo genéticos e territoriais, e que, dessa forma, colocariam divisões intransponíveis entre grupos distintos. Já os instrumentalistas, como o nome mesmo dá a entender, acreditam que os conflitos entre etnias deve ser explicado como uma instrumentalização das elites locais e líderes dos aspectos étnicos, isto é, mais do que uma explicação essencialista como a primeira, aqui o que conta é a capacidade de mobilizar as identidades étnicas como um motivo de engajamento nos conflitos. Dessa forma, trata-se de uma mobilização das diferenças étnicas presentes para a entrada em conflitos de fato. Por fim, os construtivistas, assim como os instrumentalistas, acreditam que as questões étnicas são construções sociais, no entanto, defendem que os conflitos possuem raízes muito mais complexas do que uma mera disputa entre as elites dominantes (como defendem os instrumentalistas).

Hoje, tende-se a defender que nenhuma abordagem é meramente primordialista ou instrumentalista: o construtivismo, portanto, integra uma análise dos poderes em questão nos conflitos (instrumentalista) com aqueles laços de pertença que definem esses diferentes grupos (primordialista) de forma a mostrar que as raízes e motivos das lutas étnicas devem ser explicados nos termos dos próprios desenvolvimentos sociais, e não em termos de biologia ou de uma simples disputa por poder.

Para além da explicação teórica de seus motivos, as disputas étnicas são uma constante na história da humanidade, onde, como dito, as questões de etnia são transpassados por diferentes causas e razões. Assim, as Cruzadas da Idade Média, por exemplo, foram um grande conflito étnico que opôs os cristãos europeus aos povos árabes que ocupavam Jerusalém. Jerusalém, que, até hoje, é disputada entre judeus israelenses e o povo palestino. Já motivos raciais, como o apartheid na África do Sul, colocavam a ideia de raça como eixo do conflito entre a minoria branca dominante e a maioria negra dominada politicamente. Eles também se dão por diferenças específicas de etnias em si, como no massacre dos hutus pelos tutsis na Guerra Civil de Ruanda.

A história do Brasil também é marcada por um conflito étnico fundamental, o processo de dominação portuguesa e o consequente genocídio dos povos indígenas originários. Ocasionados pelas expansões colonialistas europeias, esses movimentos não estenderam aos indígenas, os habitantes originários desses territórios, os direitos e a humanidade retoricamente professada e defendida pela Europa civilizada.

Fonte:

Phillipe Poutignat; Jocelyne Streiff-Fenart. Teorias da etnicidade. São Paulo: editora da UNESP, 1997

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