Primeiros povos da África

Mestre em História Comparada (UFRJ, 2020)
Bacharel em História (UFRJ, 2018)

Publicado em 04/12/2021
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O território africano, devido à sua diversidade do ponto de vista físico, foi cenário do surgimento de culturas complexas e sociedades pluralizadas. Há no continente africano savanas, florestas, desertos, estepes, além das grandes bacias fluviais formadas pelos rios Nilo, Niger, Zaire e Congo, o maior de todos.

Por sua vez, o deserto do Saara atuou como uma espécie de divisor geográfico no continente, de maneira que separou populações saarianas e subsaarianas. Ao longo do vasto território africano surgiram povos com características culturais, atividades econômicas, reinos e impérios diversificados.

Em torno do Rio Nilo houve a expansão da cultura agrícola e da domesticação de animais. Isso se deu devido à abundância de água e às cheias do grande rio, propiciando a atividade agrícola nas margens. A proximidade com a região da Mesopotâmia e a semelhança do clima dessa região gerou, portanto, o desenvolvimento de sociedades como os núbios, os egípcios e os númidas.

Os núbios eram povos antigos do Alto do Nilo, nos limites do atual Egito e do Atual Sudão. Alguns historiadores como o Dr. Cheikh Antah Diop (1923-1986), defenderam que os núbios, também conhecidos como etíopes, influenciaram as culturas do delta do Nilo, faraônica. Isto porque a maioria dos deuses egípcios têm em suas origens expressões derivadas dos núbios. Vestígios arqueológicos indicam diversas missões militares enviadas pelos egípcios as terras dos núbios entre 3000 a. C e 1650 a. C, quando finalmente conquistaram o reino de Cuxe.

A organização social egípcia girava em torno da figura do faraó, considerado rei e Deus, senhor absoluto que centralizava o poder estatal. O faraó detinha a posse das propriedades de plantio, e as distribuía aos sacerdotes e chefes militares, que constituíam uma pequena elite. O restante da população, a maior parte, plantava e participava da construção de obras públicas, em regime de trabalho servil. Havia ainda, mas em menor número, os escravizados; estes eram os indivíduos prisioneiros de guerras ou possuidores de dívidas em relação ao Estado.

Grande parte dos vestígios sobre o Egito antigo foi conservada nas tumbas dos faraós, localizadas nas pirâmides e em outros sítios arqueológicos. Múmias, jóias, objetos diversos e pergaminhos egípcios estão espalhados em museus ao redor do mundo, em especial nos países Europeus e nos Estados Unidos. Uma grande parte dos objetos saiu das tumbas nas mãos de ladrões e aventureiros.

A sociedade númida ocupava uma região importante localizada na estratégica rota de comerciantes da península arábica. Por conta disso, os núbios intermediavam o comércio dos produtos que partiam da Ásia, além de praticarem a agricultura e a pecuária. Por conta da proximidade com as terras do Egito, os núbios foram fortemente influenciados pela cultura egípcia e submetidos às suas organizações sociais.

Devido ao processo de ressecamento do Saara, ocorrido em 2000 a.C, o deslocamento de populações em busca de água e alimento foi inevitável. Neste sentido, o contato entre grupos provenientes do norte do continente e povos do Mediterrâneo possibilitou uma rica mistura cultural.

Neste contexto de transição para o norte da África, os saarianos encontraram os povos berberes, ocupantes da costa mediterrânea. A miscigenação entre estes dois grupos deu origem a vários povos que estabeleceram-se na região e passaram a praticar atividades típicas de sociedades nômades, como o pastoreio e comércio

Os povos nômades não organizavam formas permanentes de Estado; apesar disso, possuíam grande importância política e econômica, por conta da intermediação comercial e cultural que proporcionavam. Por outro lado, o historiador Roland Oliver considera as caravanas desses povos nômades “organizadas como um reino em movimento”. (OLIVER, 1980, p. 149). Por meio de rotas comerciais dos povos nômades foi estabelecido o comércio de ouro, sal, pimenta, essências, tecidos e, claro, escravizados entre povos subsaarianos e berberes.

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Referências:

DIOP, Cheikh Anta; COOK, Mercer. The African origin of civilization: Myth or reality. Chicago Review Press, 2012 [1974].

ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, The Editors. “Nubia”. Encyclopaedia Britannica. Disponível em:https://www.britannica.com/place/Nubia. Acesso em: 26/11/2021.

FERNANDEZ-ARMESTO, F. Então você pensa que é humano?: uma breve história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MORAES, José Geraldo Vinci de. História Geral e Brasil: ensino médio: volume único. 3.ed. Atual. São Paulo, 2009.

OLIVER, Roland. Breve história da África. Portugal/; Livraria Sá Costa, Portugal, 1980.

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