Revolta do Ano da Fumaça

Graduada em História (Udesc, 2010)
Mestre em História (Udesc, 2013)
Doutora em História (USP, 2018)

A Revolta do Ano da Fumaça ocorreu em março de 1833 e ficou assim conhecida por causa da neblina que à época esteve tão presente na região de Minas Gerais, onde ocorreu a revolta. O evento também ficou conhecido como Sedição Militar de 1833. A década de 1830 na jovem nação brasileira foi marcada por motins e rebeliões: com a abdicação de D. Pedro I, seu retorno para Portugal e a impossibilidade de o novo imperador subir ao trono por conta de sua pouca idade: D. Pedro II era ainda uma criança quando D. Pedro I saiu do país. Com a falta de um monarca à frente do país a instabilidade política passou a se fazer presente. Administrado por regentes temporários, a jovem nação pegou fogo nos anos 1830. Diversas foram as revoltas, ao norte, ao sul e ao centro do país: Balaiada, Cabanagem, Sabinada, Farrapos, Malês e tantas outras são exemplos da instabilidade do império e da insatisfação popular. Esse também foi o período da disputa pela direção do poder central entre moderados, exaltados e restauradores, o que se fez ver em diversas disputas políticas à época. A relação do centro com as províncias era de fundamental importância.

Foi nesta época que começou a entrar em questão – e em disputa – os projetos políticos que conduziriam o país; um momento de disputa ferrenha pela tomada da direção do poder, ou seja, pela opção política que seria tomada a partir de então. Minas Gerais – palco do conflito aqui em questão – estava ordenada pelo projeto moderado-conservador, a partir de sua elite política e assim, seus líderes, como Bernardo Pereira de Vasconcelos, mostravam-se partidários do liberalismo moderado conservador. Poucos anos depois, na década de 1840, as disputas entre liberais e conservadores pela direção do Estado passaram a ficar mais evidentes.

Minas Gerais não ficou de fora deste cenário. Em 22 de março de 1833 o grupo de restauradores conhecido como Caramurus marcharam sobre Ouro Preto aproveitando a ausência do presidente da província Manoel Ignácio de Mello e Souza e tomaram o poder, libertando militares presos e deportando lideranças da situação como Bernardo Pereira de Vasconcelos e o Padre José Bento Ferreira de Mello. O poder ficou nas mãos de Soares de Couto. O grupo dos Caramurus era composto em sua maioria por comerciantes portugueses, burocratas e militares e eles denunciavam práticas despóticas do grupo que estava no poder até então, reclamavam da alta taxação sobre alguns produtos, como a aguardente e questionavam a proibição de sepultamentos no interior das igrejas, o que era bastante comum à época. Inclusive, quem visita as igrejas de Ouro Preto conhece as histórias dos sepultamentos: quão mais próximo do altar, mais poder significava. A disputa, em fundo de pano, era entre liberais e conservadores.

Depois de deportado Bernardo Pereira de Vasconcelos organizou a resposta, estabelecendo-se em São João del Rei, cidade próxima, enviando aproximadamente seis mil homens para conter os revoltosos em Ouro Preto. Houve conflito e enfrentamento até o retorno do presidente da província, Manoel Ignácio de Mello e Souza, o que ocasionou também no retorno à estabilidade e à ordem e a vitória sobre os restauradores.

A Revolta do Ano da Fumaça ou Sedição Militar de 1833 foi uma das poucas revoltas a ocorrer no período na região em Minas Gerais. Muitos foram os levantes presentes no Brasil à época, mas poucos deles ocorreram na região: somente a Revolta das Carrancas, datada do mesmo ano. No entanto, diferente da Sedição Militar, que ficou caracterizada por uma disputa pelo direcionamento do poder, a das Carrancas ficou marcada como uma revolta de sujeitos escravizados que se organizaram e se levantaram contra os proprietários – a família Junqueira. Seja por disputas por projetos políticos ou motins de organização popular, a década de 1830 abalou as estruturas do império, exigindo, inclusive, tentativas de estabilização, que só começariam a surtir efeito com o golpe da maioridade e a ascensão de D. Pedro II, ao trono do Império, sustentando uma monarquia cercada de experiências republicanas ao seu redor.

Referências:

SILVA, Wlamir. Usos da fumaça: a Revolta do ano da Fumaça e a afirmação moderada na província de Minas. In: Locus: Revista de História. Juiz de Fora, vol. 4, n. 1, p. 105 – 118, 1998.

SCHWARCZ, Lilia; STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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